Quais seriam os limites de um terceiro na educação dos filhos?

Em uma bela tarde de domingo, dia de descanso para a maioria das pessoas, almoçavam pai, mãe, bebê e sua babá. Para uma família tradicional, um dia comum. Para um casal contemporâneo, acostumado ao entretenimento incondicional e ininterrupto das redes sociais e smartphones, uma ótima oportunidade para inverter os papéis. Ficava a cargo da babá, originalmente contratada para auxiliar os pais no processo de criação, a tarefa de distrair, monitorar, alimentar e educar a criança. E aí questionamos: Quais seriam os limites de um terceiro na educação dos filhos?

O objetivo desta discussão não é, sob nenhum aspecto, condenar a profissão de babá. Muito pelo contrário. O alerta é quanto à perda, por parte da criança, das referências de pai e mãe; além da análise dos efeitos deste distanciamento.  Pedagogicamente não se deve apenas sustentar, financeiramente, um filho. A fundamentalidade dos pais remete, necessariamente, à participação direta na formação da identidade dos filhos. E isso requer proximidade, dedicação, exemplo e imposição.

Antigamente, a criança iniciava sua vida escolar por volta dos seis anos de idade, e antes disso ela tinha sua identidade e lugar preservados e referenciados à sua família. Com várias mudanças nas configurações familiares, percebe-se a passagem de uma segurança familiar relativamente esperada, servindo como ponto de referência para a criança montar sua identidade, para um ambiente social, no qual pessoas não familiares a introduzem precocemente na comunidade e suas leis gerais, de um modo geralmente técnico. Um exemplo disso são as creches, onde o bebê recebe, na maior parte das vezes, os cuidados necessários de uma profissional, designada para cuidar dele e de inúmeros outros bebês, tecnicamente e de maneira padronizada. Esses cuidados, muitas vezes, entram em choque com os hábitos familiares.

É sabido que a mãe e mulher moderna, estudando e trabalhando fora, provavelmente vai precisar de alguma ajuda em algum momento desta jornada, seja com os serviços domésticos ou com os cuidados com o bebê. Esta ajuda poderá vir de uma empregada doméstica, de babá ou ainda dos avós ou de outro familiar. Neste momento a estrutura vai variar de acordo com a rotina e com as necessidades dessa mãe e da família.

Optando pela babá, inclusive as babás noturnas ou de finais de semana, é preciso estar atento e ter cautela para não entregar a elas todo o cuidado e o lugar de referência e apoio que as crianças necessitam durante as fases de desenvolvimento, pois, com isso, podem construir, socialmente, uma lacuna na relação familiar. Nesse sentido, é importante que sejam os pais os adultos de referência emocional, que trarão sustentação psíquica para a criança se construir no mundo, pois a presença da babá entende-se ser temporária.

O maior problema nisso tudo é que queremos sempre TER! Ter filhos, ter coisas, ter tempo para fazer tudo que os outros estão fazendo também, e assim continuamos com nossas agendas cheias de compromisso e, consequentemente, preenchemos as agendas das crianças também. Embora às vezes seja inevitável preencher o tempo dessas crianças com tantas atividades, muitas vezes até importantes e produtivas, tal ato pode ser visto como uma possibilidade de mantê-los ocupados na tentativa de amenizar a culpa dos pais pela ausência.

Portanto, é preciso encontrar um equilíbrio para lidar com essa realidade do mundo moderno. Ao compartilhar os cuidados dos filhos com um terceiro, certifique-se até onde vai essa relação e, principalmente, procure aproveitar com qualidade todo o tempo que puderem estar juntos. Mãe e pai que trabalham o dia todo podem, por exemplo, deixar a novela e as redes sociais de lado e brincar com seus filhos, dar banho neles, dar o jantar e colocá-los para dormir com uma leitura. Atos como estes proporcionam maior intimidade e confiança, e isso, sim, pode amenizar a falta tantas vezes inevitável de suas presenças.

Responsabilizando-se qualitativa e quantitativamente pelos cuidados dos filhos, os pais não deixam de reconhecer o papel fundamental das babás, professores e avós, isso é compartilhar cuidados, enquanto que terceirizar é alienar-se de suas responsabilidades em sua grande parte.

Crianças submetidas à terceirização podem não falar diretamente sobre suas carências, principalmente os menores, mas vão pouco a pouco dando sinais de problemas de convivência com irmãos e coleguinhas, ou até mesmo apresentam sintomas como uma febre, um resfriado, dentre outros, na tentativa de comunicar essa falta e para trazer seus pais de volta.

Também é comum a terceirização trazer consequências inclusive no ambiente escolar, em algumas questões básicas que deveriam estar sob o encargo da educação familiar, tais como: limites, gratidão, princípios e valores. Muitos pais esperam que tais itens estejam incluídos como matérias pertencentes à grade curricular de seus filhos. Os pais precisam se lembrar de que a escola e os professores têm, sim, um papel fundamental no desenvolvimento de seus filhos enquanto sujeitos, e jamais se esquecerem de que na escola eles são alunos por um tempo na vida, mas filhos eles serão pra sempre.

O papel dos pais, em grandes linhas, será sempre o de educar e o papel da escola o de ensinar, informar e de passar o conteúdo das matérias, bem como técnicas de aprendizado, o que proporciona desenvolvimento intelectual dos alunos. Entretanto, não se deve esquecer de que a escola é complemento, pois se é esperado que estes alunos sejam filhos amparados emocionalmente por seus pais.

De tudo que foi dito aqui a única vítima é a criança, por não ter tido escolha, já que nasceu a partir de uma escolha dos pais. E enquanto existem pais que lutam, há outros que não se importam; enquanto há educadores que são professores, há outros que estão professores enquanto não encontram outra coisa para fazer.

O maior desafio dos pais modernos é permanecerem encorajados diante de suas escolhas. Os pais são protagonistas na educação de seus filhos, e apesar de existirem muitas outras coisas influenciadoras na infância, eles podem impactar efetiva e afetivamente na vida dos mesmos, seja com sua ausência, seja com sua presença, pois ambas, em medidas alternadas, serão essenciais para que cada criança constitua subjetivamente suas próprias respostas.

Diante desta realidade, espera-se que novas discussões acrescentem um pouco mais sobre as alternativas que poderíamos encontrar para resgatar o essencial da função da família, para que, diante das mudanças que estamos vivendo, possamos diminuir uma série de impasses nas etapas fundamentais para o desenvolvimento de uma criança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *