Entrevista

Entrevista concedida no dia 15 de fevereiro de 2019 à Isis C. Nunes do @psicanaliseecotidiano  

1.Nos conte um pouco sobre como escolheu seu curso de graduação.

No ano de 2005, aos 23 anos, passei por um momento muito difícil e neste período iniciei muitas pesquisas pela internet e comecei a ler muitos artigos de psicologia, acreditava que estudando eu poderia obter alguma notícia sobre meu sofrimento, somente mais tarde eu entenderia sobre a impossibilidade disso acontecer por essa via. Me dedicava à outra carreira e a primeira formação eu escolhi em decorrência do “negócio familiar”, ou melhor, para trabalhar na empresa da minha família e em psicologia me formei no final de 2012, portanto meu percurso na psicologia e psicanálise é bem inicial. Eu também sou design de interiores, inclusive conciliei as duas atuações até pouco tempo e atualmente me dedico exclusivamente ao meu consultório e à psicanálise. Escrevi algo sobre isso neste texto: Construindo com palavras

2. Como aconteceu seu encontro com a Psicanálise?

Se deu nos primeiros semestres da graduação de psicologia quando começaram as aulas de psicanálise, o que também me levou a começar minha primeira análise e comprar as Obras Incompletas de Freud. Eu lia na maioria das vezes sem entender nadica de nada, mas lia e lia. Nos últimos semestres da faculdade conheci Lacan através de outro professor e este, à época, oferecia mini-cursos sobre conceitos básicos da psicanálise lacaniana. Fui fisgada! Algo me dizia que eu não poderia fazer outra coisa senão, psicanálise. 

3. Que breves paralelos poderia nos trazer de Freud a Lacan, pensando a clínica hoje?

Me veio algo que me parece fundamental à clínica, que é justamente vê-la como soberana. Afinal, não teria sido este o caminho de Freud para estabelecer sua teoria? Recentemente li algo que Marco Antônio Coutinho Jorge disse, e que faz todo sentido pra mim, que é comparar o consultório com um laboratório, ou seja, a clínica ensina e para se reinventar é preciso também entrelaçar o conhecido com o desconhecido. Segundo ele: “Lacan transformou os últimos anos de sua prática analítica em um verdadeiro laboratório de pesquisa. Podemos estender essa observação para compreender que todo analista constrói pouco a pouco, à medida que sua experiência cresce, um laboratório psicanalítico onde cada tratamento representa uma pesquisa a ser realizada. ” (M.A.J, 2017). Ter a clínica no horizonte do avanço da psicanálise enquanto teoria, é algo que podemos e deveríamos fazer sabendo que é com o não-saber que operamos, é no caso a caso.

4. Como pensa a formação do Analista?

Bom, eu elegi o ensino de Lacan e seu conceito de Escola para sustentar minha formação e neste sentido estabeleci um norte para meu percurso. Atualmente sou membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano Brasil e Internacional dos Fóruns e membro do Fórum do Campo Lacaniano de Brasília – em formação.

Sobre a formação do analista, penso como uma construção que advém (antes de tudo) da experiência de análise, passa pelo percurso teórico/clínico (aqui incluo a supervisão dos casos clínicos é claro!) e experiência de Escola. Desde o meu primeiro encontro com a psicanálise, até agora, a ideia de formação do analista se modificou e foi se tornando mais possível de assimilar mas, como tudo em psicanálise, a clareza é não-toda e é por isso que posso avançar.

Os desvios que testemunhamos hoje, talvez não sejam diferentes dos que já aconteceram e que ainda vão acontecer, a configuração muda conforme os tempos, mas a verdade é que dá mesmo muito trabalho essa tal psicanálise e principalmente a formação, e concordo que é para poucos. Só estar em uma Escola de psicanálise também não dá garantias, é preciso se lançar ao trabalho sem descanso, pois estamos falando de desejo. É também, absurdamente diferente da formação universitária com diploma, modelo e cronograma didáticos e férias, aliás o inconsciente tira férias? O que isso quer dizer é que “não há formação do analista”; “há formação do inconsciente” . E por essa razão não existe possibilidade de pensar a formação do analista sem passar pela análise pessoal, ambos estão em continuidade, por isso a relação que cada um tem com a psicanálise e sua formação é tão própria. Há um saber a respeito da formação do analista, um saber a respeito da “causa” o que é diferente da “escolha” profissional.   

Então, ou você se lança à experiência e paga seus preços ou se paralisa esperando a facilitação e a melhor resposta pra começar. A formação do analista também não tem passo-a-passo, aliás é o próprio passo-a-passo… interminável. Ao escrever uma carta endereçada a uma Escola de psicanálise, são os passos dados que contam nossa história e que podem dizer algo do nosso desejo e nossas transferências de trabalho com os pares, e diz, antes de tudo, de um percurso solitário e singular. Falar e estudar sobre a formação do analista e a Escola de Lacan me anima muito.

5. Uma questão que surge bastante na rede é sobre o Desejo. Que apontamentos sobre o Desejo e o Desejo do Analista poderia nos trazer? 

Particularmente acho que são questões bem difíceis de responder assim, mas vou tentar soltar minimamente alguns pensamentos que utilizo para facilitar meu entendimento a respeito:

Sobre o desejo acho importante pensar que não é o mesmo que querer ou vontade. O desejo é o próprio movimento de desejar, é a busca daquilo que foi para sempre perdido. Sinônimo da falta, ou seja, é estruturante do sujeito.

Já o desejo do analista, não é aquilo que o analista deseja ao analisante, ao contrário disso, trata-se de uma essência vazia do desejo, ou melhor, vazio de respostas à demanda, causa de desejo. Assim, o analista deixa o espaço livre para o analisante deslizar pela cadeia significante, o que seria o mesmo que associar suas ideias e fazer operar a regra fundamental da psicanálise, aquela que move o processo psicanalítico. E conforme tenho avançando nos meus estudos, pensar no desejo do analista é quase que dizer sobre a psicanálise e sua ética. É também dizer de uma oposição a qualquer tratamento que seja apoiado na identificação. 

6. Nos conte um pouco de sua relação com a leitura e a escrita…

Pra mim a leitura é uma viagem, é uma experiência de saída, de perdas e efeitos. E a escrita é talvez uma possibilidade de amarração, aproximação ou de fazer algo a partir do que se perde da leitura ou das experiências. Só consigo dizer isso agora, me perdi, nunca havia pensado sobre isso. 

7. Sobre o laço com uma Escola de Psicanálise, que pontos destacaria? 

Que bom que você utilizou o significante “laço”, me faz pensar na Transferência, o primeiro ponto é: “O que liga?” em seguida, a partir de um laço é possível se enlaçar um pouco mais, por isso destaco a importância do segundo ponto, o Cartel, dispositivo instituído por Lacan como a base de funcionamento e também  como uma das portas de entrada de sua Escola. Esse pequeno grupo, segundo Lacan, será formado por no mínimo três e no máximo cinco pessoas, sendo quatro a justa medida, e também Mais-Uma, encarregada da seleção, da discussão e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um, e este trabalho de grupo tem tempo para acabar, ele se dissolve. O Cartel é, no entanto, um laço diferente, seu trabalho propõe reduzir os efeitos de grupo o que teria como consequência uma produção e mais ainda, o Cartel ensina que: para decolar é preciso d(escolar).

8. Como surgiu o @bemditapalavra? 

Começou com um convite de um jornal virtual aqui de Brasília para escrever alguns textos semanais por um tempo, depois comecei a registrá-los em meu próprio site que carrega o mesmo nome nas redes sociais, e seu objetivo foi se transformando juntamente com meu percurso na psicanálise, e continua. Sobre o nome, me inspirei em uma anotação do “Diário de um analisando em Paris” de Cláudio Pfeil  o que faz referência à ética da psicanálise, que é a ética do bem-dizer. É dizer, levando em conta que o desejo não pode ser dito diretamente, mas que é dito sempre entre as palavras. 

9. Sobre angústia e falta, quais questões levantaria aos leitores que se deparam com inúmeras ofertas, especialmente na rede, para tampar um ponto que mobilizaria um trabalho analítico? 

A angústia é o afeto que não engana, diz Lacan. Ela carrega uma verdade sobre o sujeito. 

E a questão que eu poderia levantar é justamente a de que os leitores se questionem mais à respeito daquilo que os acometem ao invés de se lançarem à busca de uma obturação da falta e o tamponamento da angústia. Há sempre um preço a se pagar em qualquer situação, que seja então o preço de se lançar a uma experiência inédita de se reconhecer e de conquistar uma autonomia possível a partir de um lugar de fala, a psicanálise procura clarear-nos de uma cegueira sobre nossos sofrimentos. 

10. Dicas de leitura aos leitores… 

Bom, considerando que os leitores possam se interessar sobre a formação do analista vou deixar alguns textos que tenho me debruçado atualmente:

Freud: 

Sobre a dinâmica da transferência

A questão da análise leiga,

A análise finita e infinita 

Lacan: 

Ato de Fundação 21 de junho de 1964

Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola

Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956

Discurso à Escola Freudiana de Paris 6 de dezembro de 1967

Nota Italiana

Carta de dissolução da EFP

Carta para causa freudiana

Tem um livro que sempre indico também que é A estranheza da Psicanálise, de Antônio Quinet

Uma opinião sobre “Entrevista

  • 30 de novembro de 2019 em 18:43
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    Excelente entrevista. Mesmo não lacaniana, a entrevistada é uma grande inspiração para mim.

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