Em defesa da infância e do brincar

Pouco tempo pra ser criança e a vida inteira para ser adolescente, não é isso que vemos cada vez mais por ai? O fato é que todas as mudanças culturais e sociais que vêm ocorrendo, provocaram alterações expressivas em nossas vidas, inclusive de nossas crianças, fazendo-as abandonarem a infância muito cedo. Por outro lado, a adolescência, apesar de chegar mais cedo, invade também o mundo adulto, corrompendo o conjunto de realidades e posições que essa fase exige. Espera-se que resgatando algumas questões que ficaram pra trás, estas possam servir de norte para que diante da atual realidade em que vivemos seja possível criticar e contribuir positivamente enquanto profissionais das áreas psis, pais e educadores. Juntos podemos encontrar novos caminhos para acolher nossos pacientes, filhos e alunos nas perturbações de cada fase em que eles se encontram.

Essas mudanças trouxeram modificações nas configurações familiares, que antigamente era possível, com um máximo de acertos, generalizar como: pai, mãe e filhos, pois era o básico e o comum. Hoje em dia é preciso ter mais sensibilidade para fazer uma leitura mais abrangente, visto que hoje esse modelo familiar não é mais a única referência. As crianças que viveram suas infâncias lá pelos anos 60 até os 80 provavelmente tiveram experiências familiares mais intensas. Avós, primos e padrinhos estavam mais próximos inclusive nos negócios. Não tem aquela história de após o horário escolar ajudar um tio no açougue, um padrinho no mercadinho e a tia que precisa de alguém pra cuidar do filho pequeno? O fato de uma criança ou adolescente estar trabalhando abre espaço para novas discussões, no entanto, apesar da lei, é preciso relativizar e ter bom senso. Era uma ajudinha familiar e ganhava-se aí uns trocadinhos, mas em contrapartida, preservava-se o convívio familiar por mais tempo. A propósito, por que vocês acham que quando crianças, ao sermos inseridos no mundo escolar, passamos a chamar nossos professores de “tios”?

Pois bem, há algumas décadas, também era comum uma criança atravessar a rua para buscar um leite no mercadinho do seu João na esquina, e este, assim como a dona Maria da padaria, sabiam quem eram seus pais, seus irmãos e um pouquinho de cada um dos membros da família. Essas crianças eram chamadas por seus nomes e isso também constituía suas histórias, aspecto importante já que sabemos que historicizar contribui efetivamente para subjetivação. Hoje, se partirmos para uma comparação deste tempo para cá, quem mora nas grandes cidades vive um paradoxo: quanto maior a cidade e o número de pessoas ao seu redor, maior o estado de desamparo e isolamento.

Se antes as referências familiares eram basicamente as mesmas e compartilhávamos experiências em um pequeno grupo de pessoas em que as narrativas nos amparavam e acolhiam historicamente, hoje temos diversas configurações familiares, inclusive cada vez mais reduzidas. Às vezes fica a cargo das escolas tentarem abarcar e acolher a criança, que precocemente foi privada do convívio familiar. Mas a realidade é que os profissionais das escolas não se encontram preparados para lidar com o um a um, com as especificidades de cada criança. E essa é uma questão importante para se discutir pedagogicamente, pois a escola tem papel fundamental nas identificações e formações do sujeito.

O objetivo aqui não é convocar com saudosismo de décadas passadas para atacar e apontar as falhas dos dias atuais e esquecer que em todos os tempos residem falhas e dificuldades vividas na sociedade. A ideia é usar como base aquilo que talvez tenha mudado tanto ao longo dos anos, e que nós não estamos nos comprometendo o suficientemente com o valor da influência que essas mudanças trazem para nosso dia a dia. Pois se o mundo muda com o passar dos tempos, deveria mudar também nossa forma de pensar as coisas. Faz-se necessário lançar sob a realidade do mundo e das nossas crianças um novo olhar e nos colocar em prontidão para uma nova escuta, ao passo que é preciso que se entenda as diferenças entre ver – ouvir e olhar – escutar. Os primeiros são fenômenos sensoriais, enquanto que os outros são elaborações psíquicas, uma da visão e a outra imaginativa do ouvir. Isso inevitavelmente nos implica numa responsabilidade mais intensa e participativa, é o ver e ouvir além do sensorial.

E como podemos fazer isso? Vamos tentar começar por aquilo que poderíamos evitar? Evitar que nossas crianças façam coisas de adultos e usem coisas de adultos. Evitar a erotização precoce de meninas não comprando soutian com enchimento enquanto elas têm apenas seis anos de idade, não as incentivando a se maquiarem e usarem roupas iguais às da mamãe ou os meninos iguais às do papai. Já viram aqueles concursos de beleza em que as meninas, na fase de troca dos dentes, precisam usar uma prótese pra saírem bem na apresentação? É disso que estou falando, elas não passam mais por fases naturais da infância. Pra onde foram as janelinhas abertas dessas meninas? Para os adultos, se tornaram motivo de vergonha, e estes usam artifícios para desinventar a infância dessas meninas.

Outra coisa que tem deixado de existir no mundo infantil é a arte de brincar. Não estou falando de deixar um tablet nas mãos de uma criança e dizer: Olha que lindo, ela sabe encontrar tudo o que precisa sozinha e fica por horas assim. Estou falando de uma criança brincar com seus pais, na escola com outras crianças e com ela mesma de esconde-esconde, reinventando novas possibilidades de um brinquedo velho sem ter que comprar outro. Brincar tem sinônimo de espontaneidade e criatividade, além de favorecer o vínculo.

Etimologicamente, brincar vem de vinculum que quer dizer laço, algema, e é derivada do verbo vincire, que significa prender, seduzir, encantar. Vinculum virou brinco e originou o verbo brincar, sinônimo de divertir-se. (Diocionário Etimológico)

O brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros (WINNICOTT. 1975, p.63)

Através da associação livre das palavras, é difícil o analista sustentar com a criança uma comunicação, por isso a introdução do brincar durante a análise se faz necessária, pois a finalidade da mesma seria entrar em contato com a fantasia da criança. Através do brincar as crianças podem deslocar angústias metaforicamente, elaborando seus conflitos permitindo-lhes crescer psiquicamente. É na capacidade de brincar com o Outro que haverá a constituição do sujeito.

O brincar está também interligado à cultura, pois este é um campo rico de simbolizações, a experiência cultural é uma continuidade das primeiras experiências do bebê. Portanto, em casa e nas escolas deveriam reproduzir mais alegrias e brincadeiras introduzindo atividades, condutas e posturas lúdicas na vida das crianças. A atividade lúdica faz com que suas realidades internas e externas entrem numa trama que não há dentro nem fora, pois a realidade é constituída por ambas, e é o entrelace entre o imaginário e o real do brincar, que servirá como expressão, realização e constituição subjetiva.

Diante de tantos pontos importantes inerentes à saúde de nossas crianças e à preservação da infância, provoco-lhes a levarem em consideração algumas dessas questões com responsabilização e compromisso. Nós como adultos podemos favorecer à nossas crianças a oportunidade de se tornarem adultos criativos e não somente grandes consumidores. Podemos reinventar a infância concorrendo com a televisão e as novas mídias, adotando posturas e atitudes menos segmentadas e mais articuladas, capturando a atenção das crianças construindo um lugar que sustente e acolha seus sonhos, vontades e desejos.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

 

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