Depressão

Em algum momento de nossas vidas, certamente entraremos em contato com a tristeza, e esta, apesar de ser passageira, é um dos sentimentos humanos mais dolorosos que existe.

A tristeza diante do luto pela perda de um ente querido, uma separação amorosa ou até mesmo da perda do emprego, manifesta-se através de um sentimento de dor e vazio que, com o passar do tempo, pode vir a ser superado. Uma dor de tamanha magnitude como a tristeza, muitas vezes, por ser difícil de sustentar, é remediada, ou seja, as pessoas procuram formas de se livrar dela consumindo medicamentos, por exemplo. O luto já não pode ser mais sentido, e onde é que foram parar os outros estágios além da negação?

Para quem não conhece os cinco estágios do luto são: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Os estágios são uma descrição do Modelo de Küber-Ross proposto por Elizabeth Küber-Ross em seu livro Sobre a Morte e o Morrer, publicado em 1969. Segundo esse modelo, pacientes com doenças terminais tendem a entrar em estado de autodepreciarão e por isso precisam se apoiar em alguns conceitos de conscientização de seu estado. Kübler-Ross originalmente aplicou estes estágios para qualquer forma de perda pessoal catastrófica, desde a morte de um ente querido e até o divórcio. Também alega que estes estágios nem sempre ocorrem nesta ordem, nem são todos experimentados por todos os pacientes, mas afirmou que uma pessoa sempre apresentará pelo menos dois.

Existem diferenças entre ficar triste e enfrentar um quadro de depressão. Ambos podem surgir por consequência de algum acontecimento da vida, mas é preciso se atentar aos sinais para não confundi-los e, se necessário, procurar um tratamento especializado.

A depressão é uma doença que se caracteriza por uma tristeza profunda e duradoura – geralmente mais que duas semanas –, e seus principais sinais são: perda do interesse ou prazer em atividades antes apreciadas, dificuldade para se concentrar, perda de sono e apetite, ansiedade, pensamentos negativos e pessimistas, culpa e autodesvalorização. Além desses sinais, a pessoa começa a se queixar de desconfortos físicos tais como: dores de cabeça, dores no estômago, costas e outros. As pessoas depressivas desinvestem em seus anseios e inibem suas vontades. Em casos mais graves, podem ocorrer ideias de morte e suicídio.

Para a medicina existem vários fatores biológicos e psicológicos que podem contribuir para seu aparecimento, como, por exemplo, a hereditariedade e a exposição a situações de estresse ou conflito que, se forem persistentes, podem vir a desencadear a depressão. A depressão é uma doença recorrente, ou seja, os episódios se repetem de tempos em tempos. Na depressão, há também um desequilíbrio químico no cérebro caracterizado pelas alterações dos neurotransmissores – substâncias que fazem a comunicação entre as células nervosas – principalmente da noradrenalina e da serotonina.

A noradrenalina é um neurotransmissor produzido na glândula adrenal, um órgão que fica acima dos rins, e funciona como um hormônio ligado ao estresse e ao sistema de alerta. Já a serotonina, popularmente conhecida como sinônimo da felicidade, é de fato uma substância relacionada com estados de depressão e felicidade, ansiedade e tranquilidade, além de outras várias áreas do comportamento, tais como agressividade, raiva e irritabilidade. A serotonina participa também de outras funções importantes no organismo, como apetite, controle de temperatura, sono, náuseas e vômitos, além de questões relacionadas à sexualidade. A partir das descobertas dessas alterações, permitiu-se desenvolver medicamentos específicos para o tratamento da depressão, os famosos antidepressivos.

A associação da análise com o tratamento medicamentoso – quando este é necessário – na busca da cura da depressão, faz-se efetiva pelo fato de que as duas são complementares. Seja qual for sua origem, a depressão acarreta na vida do sujeito deprimido uma mudança em suas relações sociais, fundamentalmente na forma de se expressar afetivamente, aspectos que o medicamento não é capaz de alcançar. Com as dinâmicas das emoções prejudicadas, a análise e o uso das palavras são fundamentais, além de levar o sujeito deprimido a refletir sobre seu funcionamento dinâmico e suas emoções, serve para que ele se responsabilize por seu sintoma – no sentido psicanalítico – e seu mal-estar. Assim, aumentaria suas possibilidades de reconstruir-se a partir de um cenário alterado.

Outra ponto que requer cuidado é a difusão do discurso da ciência. Termos como depressão, pânico, TOC e bipolaridade, presentes nos manuais de diagnóstico, passaram a fazer parte do domínio público, e não mais somente das áreas científicas envolvidas. Acredita-se que a vulgarização destes termos quando usados fora de seus contextos, podem ter modificado a percepção do sujeito contemporâneo sobre si mesmo, trazendo para o cotidiano uma tendência à rotulação diagnóstica. E isso dificulta a implicação do sujeito em suas questões subjetivas, passíveis de transformações.

Ao falar de depressão, do afeto triste, Lacan empresta termos de Spinoza, para referir-se à impotência do ser falante em transformar o sofrimento da tristeza, que torna a alma presa a ideias inadequadas, que nada quer saber da verdade do seu desejo. A depressão tende a convocar o sujeito à uma posição de fuga, de não querer saber daquilo que está o afetando e da sua dor de existir.

Nos estados tristes e depressivos sempre haverá para o sujeito uma inscrição de sua própria história que poderá acarretar em grande sofrimento, e por isso é comum em seu discurso a presença de conteúdos demonstrados em lamentos muito daquilo que não querem se dar conta. Imaginando que podem ser vítimas de um destino impossível de retificação, muitas pessoas deprimidas não procuram ajuda, elas se remetem a um lugar de defesa preferindo não se declarar e muito menos serem analisadas.

Falando livremente é possível que o sujeito transforme essa posição inerte em questionamentos a respeito de seu lugar de sofrimento, neste contexto, caberá ao analista possibilitar ao sujeito em análise uma retificação subjetiva de seus significantes, bem como se dar conta da sua responsabilidade diante de seus próprios sintomas.

A depressão é um sinal de que algo não está bem com o sujeito, é uma posição que ele encontrou para lidar com suas questões pessoais e suas idealizações. Por isso, quando insisto em repetir a afirmação de Lacan que a palavra deve ser bem-dita, é porque ela precisa ser levada à sua clareza. Assim, é possível evoluir-se e conquistar um saber, um saber mais de si, que é também saber o que fazer com seu sintoma, isso é saber viver.

Flávia Tereza – Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

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