Construindo com palavras

Certo dia uma amiga me disse assim: “Flávia, você é duplamente designer de interiores.” Ao ouvir isso, me coloquei a pensar no quanto essa afirmação fazia sentido em minha vida e hoje resolvi escrever sobre o que ela quis dizer, o que consequentemente envolve falar um pouquinho das minhas atuações profissionais, sim, é no plural. Sempre gostei de contemplar a beleza das coisas, a valorizar a organização e a admirar tudo que pudesse ser feito para melhorar um lugar ou alguma situação, além disso, sempre soube que para conquistar a harmonia, era preciso antes de tudo, passar por uma etapa em que tudo fica feio e difícil e que os caminhos para dar cores à escuridão dependem, sobretudo, do desejo do outro.

Motivada pelo negócio da família, resolvi estudar design de interiores, e isso foi fundamental para atuar juntamente com meu pai e mais dois irmãos à frente de projetos moveleiros para nossa fábrica de móveis planejados. Sempre que discutíamos um projeto chegávamos num ponto em que todos concordavam: “Vendemos sonhos e, por isso, leve o tempo que precisar vamos desenhar e executar os projetos com carinho e bastante atenção”.  Modificar um ambiente, reconstruir um cenário tão significativo que é o cantinho e a morada de cada um não é tarefa fácil, é preciso ter sensibilidade e muita dedicação.

Costumava dizer, e ainda digo, que existe uma relação muito íntima entre cuidar de sua casa e cuidar de si mesmo, pensando nisso, aos 25 anos eu queria me dedicar à reconstrução e desenhos de outros interiores, e resolvi me ingressar no curso de psicologia. Na faculdade descobri um mundo novo com um método de desenhar que utilizava ferramentas diferentes, mas que produziam um resultado surpreendentemente parecido com aquele que já trabalhava.

Para elaboração de desenhos de ambientes utilizam-se algumas ferramentas, como: pranchetas, AutoCad e linhas, e desde as dúvidas do desenho até a construção ou reconstrução do ambiente, passamos juntamente com o cliente por momentos de angústia e estresse, até a aprovação, adaptação e execução do projeto. E é realmente penoso pois, derruba-se uma parede, levanta poeira, constrói, monta, desmonta, torna a montar, colore e adorna, e por aí vai…

Atuando no consultório orientada pelos estudos de psicanálise da minha formação, descobri incríveis semelhanças com o design, e a principal delas é a missão transformadora que ambas se comprometem a cumprir. Só que agora utilizava outras ferramentas como: o “setting”, o divã e as palavras. E mais uma vez: derruba-se paredes, levanta poeira, constrói, monta, desmonta, torna a montar, colore e adorna… É um movimento que percorre entre dor e amor, de angústia e desejo, e que vem reposicionar, ou seja, dar novos lugares às coisas e aos dramas pessoais de cada um, criando um novo cenário construído a partir de um olhar diferente e cheio de novas possibilidades.

Reformar e analisar despertam angústias porque percebemos que não damos conta de todo o saber, e que não podemos alcança-lo completamente. Nem o analista sabe toda a verdade sobre o analisando, nem o designer é dono de todas respostas aos questionamentos e expectativas do cliente. E isso provoca uma angústia tremenda, por isso, ao escolher a psicanálise para estudar e trabalhar, consequentemente, venho aprendendo a lidar com a cessação dessas certezas. Quando decidi me dedicar à psicanálise eu estava completamente contaminada pelo desejo de saber e me lancei na busca de respostas, encontrando porém, a angustiante constatação de que a psicanálise era exatamente a busca, e percebi então, que do mesmo lugar que sai a angústia, sai também o desejo.

Entre linhas e palavras, riscos e rabiscos, medidas e sentimentos, trena e tempo, layout e interpretação, iluminação e insight, recorte e escansão, colorir e abrandar, autorizar e autorizar-se, desejar e desejar, é sabido que trata-se de um processo que não tem fim, porém, quanto mais se gastam as palavras mais as angústias diminuem, e é assim que se constrói novas possibilidades e uma nova morada, e meu maior desejo é sem dúvida alguma, continuar construindo com palavras.

Uma opinião sobre “Construindo com palavras

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *