Você já sentiu alguma dor física que julgasse ser de “fundo emocional”?

dor-de-gargantaQuando a gente fala sobre qualquer assunto e relaciona com o que a psicanálise diz sobre ele, de fato nos deparamos sempre com uma implicação responsiva da posição em que ocupamos enquanto sujeitos. Com o processo de vivenciar os dramas de uma doença crônica ou transitória não seria diferente. Isso, então, articula a localização do sujeito, ou seja, sua posição diante de sua problemática, neste caso a doença e suas dores físicas.

Sabe aquela dor nas costas que insiste em convocar a ideia de que existe sobre os ombros tamanha responsabilidade, difícil de carregar só, ou por ser esteio quando não se pode ser? Sabe aquela dor na garganta que de forma repentina aparece quando você deveria ter com alguém uma conversa relevante para você? E sentir seu corpo adoecer, em estado febril lembrando-te que essa era a dor física que sentias quando do seu abandono? Um pouco mais longe, podíamos pensar também nas doenças crônicas e autoimunes, ressaltando não a doença em si, mas o modo particular de cada um de nós em apresentar uma resposta às experiências traumáticas, seja em doenças permanentes ou surtos, marcando uma inscrição direta no corpo.

Na maioria dos casos recorremos a um atendimento médico, pressupondo que sairemos de lá com a prescrição de um medicamento, o qual será responsável pela cura ou alívio da dor sentida. É “gozado” o que ocorre – daí o uso provocativo do termo –, pois em vários casos há uma permanência nesse estado de doença mesmo após o tratamento através da medicação.

Por isso, faz-se necessário investigar a demanda psíquica e buscar clarear o que o fenômeno psicossomático pode estar encobrindo. O fenômeno psicossomático é reproduzido como traços que são escritos no corpo para não se ler, são escritos indecifráveis e impossíveis de nomear. O que não quer dizer que ele seja um sintoma, mas sinaliza que uma doença pode ter reações bioquímicas associadas a outros fatores além dos fisiológicos. É comum aparecer nos nossos discursos a expressão “fundo emocional” para dizer sobre a possível causa da dor e da doença, não é assim?

Para Lacan, a manifestação de ordem psíquica do adoecimento no corpo, é explicado como uma falha no recalque, ou melhor, chamaria de falha simbólica ao tratar de um congelamento entre significantes. Lacan refere-se ao gozo que se encontra no psicossomático, dizendo: “[…] se evoquei uma metáfora como a do congelado, é porque existe efetivamente essa espécie de fixação […] é porque o corpo se deixa levar a escrever algo da ordem do número” (LACAN, 1975).

A saber, quando nascemos, já nascemos “falados”, isto é, os desejos de nossos pais são os nossos enquanto crianças, mas para que possamos nos constituir como sujeitos é preciso estarmos referenciados a um outro significante. A partir dessa relação, percebemos, porém, que o Outro não é capaz de dizer tudo sobre nós, que este Outro é incompleto.

Portanto, um significante não se explica por si só, é preciso sempre outro para explicar o anterior, e a este movimento Lacan compreende a cadeia de significantes. E é quando um sujeito está congelado e paralisado em apenas um significante sem conseguir simbolizar, que há manifestação corporal.

O fenômeno psicossomático não faz apelo ao Outro, mas antes aparece como sentença e inscrição. Lacan o denomina como hieróglifo e neste sentido ele diz:

Certamente que se trata de um domínio mais que inexplorado. Finalmente é, de todo modo, algo da ordem do escrito. Em muitos casos não sabemos lê-lo. Teria de dizer aqui alguma coisa que introduzisse a noção do escrito. Tudo se passa como se algo estivesse escrito no corpo, alguma coisa que nos é dado como um enigma. Não é de modo algum surpreendente que tenhamos como analistas esta sensação. (LACAN, 1975).

No geral, as pessoas tendem a não acreditar que algum desequilíbrio corporal tenha raiz em algo além do corpo, buscando incansavelmente razões que expliquem os motivos pelos quais um órgão adoece. Mas toda essa dinâmica física e psíquica, convocam as questões que nos implicam nas nossas afetações orgânicas.

Somos dotados de enigmas, e estes, não podendo ser nomeados, aparecem como marcas indecifráveis no corpo, e por isso não podem ser lidas e muito menos ocultas com medicamentos. É preciso, sobretudo, buscar a elaboração por meio da linguagem a fim de promover um significado passível de interpretação. Para que esta voz que está paralisada, inflamando marcas pelo corpo físico, possa ecoar finalmente ao se expressar as palavras.

Fica, portanto, o convite para falar, não com a intenção de produzir efeitos rápidos e milagrosos, mas como uma forma de preparar o sujeito a confrontar efetivamente a sua relação com o funcionamento do seu corpo, encontrando vias inéditas, que não o sofrimento. Assim, a psicanálise acredita que os efeitos da fala permitem ao sujeito construir outras formas de resposta para sua “dor”.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

 

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