Para além de nós mesmos: Narcisismo e Modernidade

Por Claudio Barra de Castro

Vivemos em tempos narcísicos. Sobre isso não há dúvida. Nossa época se apropria da imagem para vender mercadorias, a sociedade do espetáculo, e, condicionado a esse modelo, impulsiona um modo de relacionamento social em que a própria imagem fala por si, em que o corpo vira um meio de troca social somente por sua presença. Em meio a esse ambiente, várias pessoas que chegam à clínica têm sua demanda restrita à restituição de algo que lhe complete narcisicamente, que complete sua imagem perfeita e acabada da forma mais fácil e rápida possível.

Muitas terapias, surgidas não sem motivo nessa própria modernidade tardia, respondem a essa demanda, seja com sugestões da melhor ação, seja com o contato com seres místicos dos mais variados, seja com hipnose, seja com reforço da autoestima, seja até mesmo com o toque corporal. Efeitos de cura podem existir nessas experiências, sem dúvida. O que fica como questionamento, e mesmo como efeito de angústia que testemunhamos todos os dias na clínica e nos relatos sociais, é se esses modelos não aprofundam o mal que tentam combater, ao reproduzirem suas próprias causas. Por se sustentarem na ação de um terapeuta que, através de sua fala ou de seu ato com amplo saber, produz para seu cliente o reencontro com uma imagem perfeita e garantida, essas terapias concentram-se em uma cura sintomática que sustenta o sujeito no mesmo ponto de alienação que gerou o sintoma anterior e que, sem que esse saiba, transformará a saída que encontrou em novo sintoma, que se manifestará tão logo a onipotência imaginária com que investiu o terapeuta seja abalada por uma angústia inexplicável.

Como responder então aos tempos narcísicos? A psicanálise apresenta uma alternativa: pela fala. Obviamente, a fala está presente em nós o tempo todo, mesmo no silêncio, e necessariamente se apresenta em algum nível nas terapias apontadas acima. Mas então, qual é a especificidade dessa fala sustentada em uma clínica psicanalítica? Essa especificidade se distinguirá dependendo da estrutura clínica em questão. As estruturas podem ser neurótica, psicótica ou perversa. Na clínica neurótica, mais presente, pode-se apontar duas: a primeira é fazer o sujeito falar livremente, em uma associação pura, como puro ato performático; a segunda, retornar a fala ao próprio sujeito que diz, de modo que ele possa se fazer ouvir e se implicar até a carne com seu dizer.

Percebe-se assim, de início, que o foco fica deslocado do imaginário para o simbólico. Esse é o primeiro movimento da análise. Mais do que imagem, somos seres simbólicos. Desde criança, realizamos trocas simbólicas com aqueles que cuidam de nós. A criança entra no mundo de forma desamparada e sua existência necessariamente passa por alguém que exerce a função materna e da qual recebemos amor e palavras ou gestos cuja reprodução mantem nossos apelos pela existência. Muitos desses elementos se mantêm no inconsciente e é nessa instância que o outro com quem falamos vai adquirir um lugar especial, tão especial que é a partir dele que poderemos constituir nossa imagem de nós mesmos. Freud dizia que o narcisismo surge quando quem cuida da criança a toma como uma majestade. Isto quer dizer que nosso narcisismo não depende de nós mesmos e está vinculado a como fomos e seremos falados. Ainda, o outro se instala no inconsciente porque queremos sempre mais, sempre mais e sempre além do que estamos falando como eu. A imagem em si do eu não basta e, assim, nossa existência subjetiva passa a depender de um jogo que comporta uma série de tensões e articulações simbólicas. Desse jogo surgem, entre várias outras manifestações, a resistência paradoxal em sair do ponto subjetivo em que estamos, a atribuição de uma onipotência das palavras que recebemos e introjetamos do outro, a construção de fantasias sexuais, o estabelecimento de relações de amor e ódio com nosso semelhante e as tentativas de projetar no mundo nossas imagens mentais.

Ao aceitar uma pessoa em análise, o analista passa a participar desse jogo e deverá ter a função de fazê-lo se desenrolar e se reconstruir de modo que o sujeito passe a desejar viver. Aí começam os vários movimentos subsequentes que ocorrem em uma análise. Aí começa a experiência do caso a caso. Experiência? Sim, a psicanálise é uma experiência e, como frisado, do caso a caso. Não é fácil, envolve amor e ódio, envolve ir além das resistências, envolve reduzir o poder opressivo das palavras ditas pelos outros, envolve desfazer fantasias, reduzir as introjeções que sustentam o eu e as projeções diretas que a partir dele fazemos para o mundo. Mas é uma experiência subjetiva que produz uma relação melhor, menos imagética com o mundo. Amplia nossas possibilidades de troca simbólica, nosso uso do corpo, nossa relação com a angústia. Essa é nossa aposta e sobre ela sustentamos nosso trajeto com o analisando. Psicanálise: a experiência além da imagem.

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