O que diz sua fome?

A briga contra a balança para perder peso não costuma ser fácil. Para ajudar nessa missão, o que não faltam por aí são opções para tentar driblar as dificuldades desse processo. Hoje em dia, contamos com dietas para todos os gostos e até mesmo para todo tipo sanguíneo. Modalidades novas de atividades físicas aparecem a todo momento, bem como a propaganda delas, e não há assunto mais popular nas redes sociais do que “a vida saudável” de cada um. Tudo pelas fotos registradas nas academias ou fora delas, desde que apareça o treino em andamento, e ainda a divulgação das inúmeras possibilidades da culinária “fitness”. Não podemos deixar de mencionar a quantidade de procedimentos estéticos que, assim como os outros meios, foram sendo inventados e reinventados ao longo dos anos para servir de suporte na viabilização do bem-estar físico e estético do corpo.

Para investigar as razões pelas quais uma pessoa começa a engordar, contamos com vários mecanismos da clínica médica. Na maioria das vezes, é possível que um caso de obesidade apresente mais de um fator desencadeador do transtorno alimentar. O que não dá para fazer é colocar o peso em um único fator. Pensando nisso, podemos afirmar que quase sempre será necessário haver no contexto do tratamento, em igualdade de méritos, uma equipe multidisciplinar.

Comemos com fome ou sem fome, não é assim? Por isso, acredita-se que em torno do ato de comer existem razões que vão além da fome e da obrigação de saciá-la. Assim, podemos pensar que o ato de comer é expressado de várias formas que podem estar no campo de trocas subjetivas. Escolhermos uma comida, o lugar onde vamos comer e a companhia para realizar esse ato abriga uma razão simbólica pertinente à singularidade de cada um de nós.

Metaforicamente, nos alimentamos de cores, músicas, toques e vários outros arranjos do universo de discursos com ou sem palavras. E, se nos alimentamos de tudo que nos cerca, poderíamos afirmar que comer é, antes de tudo, dar e receber afeto?

Se um assunto tão pertinente como o transtorno alimentar se apresenta nos dias de hoje, a psicanálise não poderia deixar de colocar suas impressões contributivas em torno do assunto, pois a relação com a comida e a imagem corporal dialoga com as questões da posição do sujeito. Caberá ao analista considerar a intervenção que possibilite, nesse contexto, a implicação da posição do sujeito diante de sua problemática.

Comprometo-me a abordar esse assunto em outros textos seguintes, pois a complexidade do tema exige maiores contribuições. Por hora, é preciso ressaltar a importância de buscar ajuda quando julgar necessário. E, se alguém tiver dúvidas sobre em que profissional deve confiar seus problemas primeiro, procure qualquer bom profissional, pois, se for responsável e competente, este vai saber orientar quanto à necessidade da participação de uma equipe multidisciplinar no tratamento.

Mais importante do que buscar ajuda é entender que os profissionais escolhidos não fornecerão fórmulas mágicas para diminuir o sofrimento, ao contrário disso: eles serão parceiros de um trabalho penoso, que levará a um caminho intenso de perdas de ilusões. Não há como responsabilizar ninguém sobre nossos fracassos; aceitando isso, é possível construir uma história para ajudar a dar um sentido novo à vida.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

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