O que as novas tecnologias estão fazendo com o homem na atualidade?

O telefone celular ou qualquer outro aparelhinho ligado à internet é, para alguns, um meio de comunicação e, nas horas vagas, também serve para entreter. Para outros ainda, trata-se de um apêndice do corpo. Sim, apêndice, pois deliberadamente levamos e utilizamos o celular em tudo que é lugar, levamos para o banheiro, para a mesa do jantar, para a cama, para o centro das conversas com amigos e familiares e, inclusive, para o divã.

Para muitos usuários dos smartphones é impossível resistir ao chamado e, a qualquer sinal, vão logo checar. É uma nova mensagem, uma solicitação nas redes, um novo grupo de conversas que não importa quando e onde, se durante o dia ou no meio da madrugada, no trabalho ou na sala de aula, se estão sentados ou andando pela rua. Eles vão checar!

Muitos resistem, com menor ou maior intensidade, ao uso desses recursos tecnológicos, e é certo que essa resistência os coloca à margem de uma sociedade que cada vez mais chama para o uso desses dispositivos, uma vez que o imediatismo e a instantaneidade são demandas culturais da atualidade. Portanto, as transformações socioculturais são inevitáveis e irreversíveis, trazendo mudanças significativas.

Obviamente, é possível notar que o uso excessivo dos recursos tecnológicos tem modificado nossa rotina, entre uma notificação e outra nossos hábitos vão mudando. E quem não consegue se desligar acaba sofrendo de estresses e outras doenças, psicológicas e físicas. Apesar das inúmeras facilidades que o celular e outros aparelhos tecnológicos proporcionam, eles também podem promover alterações no sujeito que vão desde sintomas como dores de cabeça, pescoço, inflamação nos dedos e mãos, até sensação de irritabilidade, solidão e angústia.

A angústia certamente é um afeto inerente ao ser humano, mas sem dúvida, tem sido potencializada pelas condições em que vivemos na atualidade. O assolamento do consumismo traz consigo dias cheios de incertezas, riscos e desesperanças, além da enorme tendência ao isolamento. Nesse grande mar de águas rápidas, o sujeito tende a se sentir confuso diante das mudanças, com um olhar nublado em relação à sua própria inserção no mundo, acaba se afogando em suas incertezas.

É possível perceber na clínica atual que as marcas da revolução tecnológica digital e a propagação das redes sociais através da internet, causaram mutações culturais imprimindo mudanças subjetivas no psiquismo de cada um. Desvelando-se, então, em sintomas como a vulgarização do sexo, o enfraquecimento dos vínculos afetivos, a insegurança, o medo do envolvimento e a depressão.

Mas o que se espera dessa grande “rede” a qual atendemos prontamente os chamados? Estaríamos nós diante de uma mãe virtual?  Esta mãe notoriamente, tem nos colocado diante de um vasto universo repleto de recursos para pesquisas e brincadeiras, onde podemos nos relacionar e expressar livremente. Se pensarmos nas possibilidades de sermos e fazermos o que bem quisermos dentro da “rede”, podemos começar a articular tal liberdade e a relação com a lei e com as normas de autoridade. Então, dentro desse discurso atual, poderíamos afirmar que a figura do pai está ultrapassada?

A formação de grupos através da internet pode trazer benefícios, pois, com a elevação do sentimento de pertencimento, poderíamos nos engajar em projetos e causa importantes. Porém, percebemos que no plano individual, é possível vivenciar subjetivamente uma fragilidade nos laços com as pessoas. Nesse contexto, percebemos ainda que, ao mesmo tempo em que existe um afastamento e afrouxamento dos vínculos, por outro há uma exposição acentuada da intimidade.

Nem precisamos de tantas pesquisas e resultados para evidenciar a fragilidade dos laços sociais, nos quais predominam os vínculos ditos “líquidos”, que geram insegurança e desejos conflitantes, porque, se de um lado há o desejo de estreitar os laços com o outro, paralelamente há o desejo de mantê-los frouxos, evidenciando o medo do envolvimento. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês que tem mais de 30 obras publicadas no Brasil, pesquisa de que forma as relações humanas se tornam cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança significativamente maiores nos indivíduos. Segundo Bauman, a sociedade atual vem dando prioridade aos relacionamentos virtuais, os quais podem ser feitos e desfeitos com a mesma facilidade, e volta e meia sem que isso envolva nenhum contato além do virtual. O autor levanta a hipótese de que não sabemos mais manter laços de longo prazo. Segundo ele, a “modernidade líquida” em que vivemos traz consigo uma incomum fragilidade nos laços humanos (Bauman, 2004).

Esse é um assunto que abre espaço para muita pesquisa e também muitas opiniões críticas, mas devemos concordar que nos dias de hoje, o apelo à tecnologia poderia ser uma alternativa de estarmos ou de nos protegermos de um relacionamento simultaneamente, na tentativa de amenizar a insegurança e a ansiedade.

Outra possibilidade oferecida pela rede é a atuação a partir de posturas mais anônimas, seja em postagens ou comentários, fato que não é sem consequências, mas muitos atos praticados nesse espaço são avaliados com “vista grossa”, uma vez que a “rede”, a mãe virtual, não impõe a lei nem tampouco o limite. Ela permite que seus filhos desse mundo virtual atuem conforme o desejo de cada um deles. Vale lembrar que, apesar de estarmos diante de um novo discurso em que a tecnologia digital permissiva é parte integrante na produção dos laços sociais contemporâneos, há também o sofrimento causado pelas imposições de normas e padrões impostos pelo Outro, a mídia de massa.

São inúmeros os desejos dos filhos da mãe virtual, essa “rede” que se coloca à disposição de seus filhos 24 horas por dia, que não julga, não reprime e não barra. Sim, a internet é uma mãe bastante permissiva. E, apesar de ser acolhedora e permitir que seus filhos amadureçam diante de tanta informação proporcionada, este mesmo colo acolhedor pode fomentar as fantasias dos seus filhos adoecidos. Na nossa sociedade capitalista atual poderíamos destacar, por exemplo, a cultura da valorização da imagem e dos objetos de consumo.

Gradativamente alienados dentro da sociedade, nos vemos iludidos pela necessidade de ter e ser aquilo que não nos pertence através de um processo de identificação inconsciente. Desconhecemos nossa própria individualidade, pois não podemos gozar de nossa real subjetividade, e por isso estamos nos tornando pessoas mais inibidas, medrosas e angustiadas. No começo da vida, naturalmente estivemos alienados à figura cuidadora da mãe e à graça das fantasias originárias que fundamentam nossa estrutura psíquica. Em um segundo momento, já identificados com todos os outros significantes de nossas relações, vemo-nos constituídos por marcações que vieram de fora e que nos caracterizam como pessoa.

Como base para construção da subjetividade, a fantasia sempre circulou a vida humana, a diferença é que contamos agora com uma coparticipação do mundo virtual na nossa constituição. A psicanálise, apesar de ser um campo do saber dedicado à prática clínica individual, acredita que sujeito e cultura andam de mãos dadas, por isso é tão importante saber em que posição este sujeito está inserido na cultura.

Portanto, é preciso ressaltar que se a psicanálise sustenta que o sujeito é efeito de identificações, ela pode ter algo a dizer sobre o universo paralelo que a internet inaugurou. Em consequência desses efeitos, o que vemos na clínica atual são pessoas submetidas ao Outro, engessadas e congeladas em significantes e, ao mesmo tempo, assumindo uma posição de vítima da situação, quando na realidade desconhecem que enquanto adultos, têm o poder de escolha. O que precisamos pensar é que a questão não se trata somente do que a tecnologia pode fazer pelo homem, mas do que as novas tecnologias estão fazendo com o homem na atualidade.

O analista da clínica atual, portanto, deve promover a singularidade através do deciframento do inconsciente, da implicação e da responsabilização do sujeito em seu sintoma. Através da fala livre e das suas intervenções é capaz de promover um movimento na cadeia de significantes de seu analisando, revelando algo a respeito do funcionamento daquele sujeito singular, ajudando-o a romper com as imposições da massa ou até mesmo a se libertar da pressão de se adaptar ao mundo virtual.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

 

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