O dor da traição – Exclusividade e possessividade

Escutei de alguém que quem sofre por ter sido traído apenas demonstra um sentimento de possessividade, pois a pessoa que foi traída se sente ferida por achar que o outro lhe pertence, por acreditar que ele não teria o direito de viver outros amores, que ele seria sua propriedade. Escutei e refleti. E concluí que o sentimento de possessividade pode realmente predominar no caso de algumas pessoas, mas, no geral, observo muito mais um sentimento de exclusividade, que existe porque nós nos propomos a monogamia. Não só a propomos como até a prometemos, em juras de amor, no auge da paixão, quando desejávamos somente aquela pessoa, quando então nos entregamos ao outro e juramos fidelidade. Essa exclusividade foi prometida por dois seres que se uniram normalmente de forma voluntária, porque queriam estar um com o outro, e eles juraram amor e fidelidade porque queriam isso, porque esperavam isso um do outro: ser exclusivo, ser o único a partilhar certo tipo de intimidade, a nudez (em todos os sentidos), o toque (físico e emocional), um carinho especial que se quer dar a uma única pessoa e recebê-lo somente dela.

Acho que é injusto acusar uma pessoa de possessividade quando ela foi traída e sofre. A traição fere, a traição dói e essa dor é legítima. Sim, porque prometemos. Prometemos fidelidade, consequentemente também respeito. E é a falta de respeito, que toda traição traz consigo, o que mais machuca. A pessoa traída confiou nas juras do parceiro ou parceira, e confiando se abriu, deu de si, de sua intimidade, daquilo que lhe há de mais pessoal. Essa pessoa não fez isso por ser boba, ingênua e muito menos por ser possessiva. Ela o fez porque confiou, porque acreditou que eles tinham um acordo de exclusividade, porque ela achou que havia reciprocidade na expectativa de fidelidade trazida para o relacionamento, porque ela acreditou que o outro estava sendo sincero, que estava falando sério e que, por respeito, a traição nunca aconteceria entre eles, que nenhum deles teria que dividir o outro com outro alguém.

Nenhuma relação tem que ser para sempre. O amor (ou aquilo que definimos como amor entre homem e mulher – ou entre pessoas do mesmo sexo, o amor com o componente erótico) um dia também pode deixar de existir. Quando isso acontece, o casal costuma viver uma fase de frieza, de distância física, de falta de interesse sexual, de falta de carinho, de comunicação difícil, talvez até de perda da intimidade. O casal atravessa então uma crise, que pode passar logo, mas que pode durar anos, ou para sempre, e que pode significar também o fim do relacionamento. Aqui não existem regras ou receitas, sendo que cada casal vive suas “fases frias” de sua forma, dentro de suas necessidades e possibilidades, de acordo com seus medos e carências, mas também dependendo da autoestima e da maturidade de cada um, do amor verdadeiro pelo outro (e também por si mesmo!) e principalmente do respeito existente entre os dois.

Se um dos dois percebe que não quer mais o relacionamento, seja pelo fim do “amor”, seja por qualquer outro motivo, e se ele quer tentar sozinho ou com outra pessoa, ele tem o direito de ir. Aqui concordo com a afirmação de que ninguém é dono de ninguém. Somos todos livres para ir, ficar ou nem vir, mas não é essa questão. Se alguém quer ir, ele pode ir, mas que o faça com o devido respeito, que chegue para o outro e diga isso, que busque o diálogo, que se separe então com dignidade. A separação vai doer em ambos, é claro, mas a dor do parceiro/da parceira será muito maior se essa pessoa, ao invés de jogar limpo e ser sincera, simplesmente resolver fazer “horas extras” no trabalho para sair com algum(a) colega ou buscar um(a) amante em qualquer outro lugar, mentindo, enrolando e traindo, já buscando começar uma nova história antes de concluir e fechar com respeito e dignidade sua história atual. Pior ainda é quando se trai mesmo fora dessas “fases frias”, quando o casal ainda fala de paixão, quando se acredita que está tudo bem, mas mesmo assim um dos dois se encontra com amante(s), dividindo a exclusividade e a intimidade, mas sem que a outra pessoa saiba, deixando-a acreditando ser única, certa de que aquelas juras e aquelas palavras lindas que escutava jamais seriam ditas a outra pessoa. Aqui a dor é maior ainda, pois não se trata da consequência de uma crise, mas de falsidade, mentira, falsas promessas cotidianas, o que vejo como uma falta de respeito ainda mais grave, pois tal comportamento é mais do que uma falta no momento, ele é muito mais um sinal de que ele (o respeito) pelo(a) parceiro(a) nunca existiu ou já deixou de existir há muito tempo.

Ser traído é ser desrespeitado, e isso dói profundamente. O sofrimento causado pela traição é maior quanto menor for o respeito demonstrado pela pessoa que traiu. Faz uma diferença, por exemplo, ser traído pelo parceiro que está longe, de férias, no quarto de um hotel com um(a) turista ou ser traído com a(o) melhor amiga(o), dentro de sua própria casa, talvez até na cama do casal. A traição em si já dói, mas a dor aumenta com os detalhes que comprovam a falta de consideração por parte da pessoa que traiu, e quanto maior essa falta de consideração, maior será a quebra de confiança. Assim, a dor é imensa, por exemplo, quando se descobre estar com uma doença sexualmente transmissível porque o outro não se protegeu ao ter sexo com outra pessoa, ou saber que o marido tem outra família, ou ser traído com alguém muito próximo, melhor amigo, melhor amiga, irmão, irmã…

Ninguém é obrigado a concordar com a fidelidade. Mas que seja coerente e viva então sozinho ou procure um(a) parceiro(a) para um relacionamento aberto, ao invés de prometer monogomia e não cumprir a própria promessa, pois traição dói, e dói muito. E não, essa dor nada tem a ver com possessividade.

Por: Gustl Rosenkranz

Foto: www.mulherzices.com

 

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