O amor é a soma de duas faltas

Já ouviu dizer que o amor nos completa? Já parou pra pensar o que isso de fato significa e o que estaria em falta para que precisasse ser preenchido? Bem, se há o que completar é porque há algo incompleto ou em falta concordam? E se é o amor que completa, ele poderia ser a soma de duas faltas?

Freud explicaria da seguinte forma: nosso primeiro amor foi vivido com alguém que nos deu os primeiros cuidados em nossos primeiros anos de vida. Sim, nossa mãe ou quem pudesse representar o mesmo papel. Essa pessoa era o nosso tudo. Seus sentidos eram todos investidos em nós e naquele amor. Ela nos alimentou, aqueceu, e aqueles olhos só tinham uma direção, enquanto os nossos olhos correspondiam desejando somente aqueles olhos e sua atenção, por isso, julgávamos ser donos exclusivos daquele olhar.

E vocês acham mesmo que é possível alguma mãe ou cuidadora estar o tempo todo à disposição de um filho? Em regra, mesmo as mais dedicadas mães possuirão outros desejos além do filho e também outros amores presentes em sua vida. Portanto, algo vai nos separar deste amor, dividindo nossos olhares e marcando então a impossibilidade de realizá-lo, feito uma barra.

Diante disso, apesar de tamanha desilusão, caberá a nós encontrar um meio para seguir em frente, lançando-nos numa busca para reviver aquele amor, em novos amores. Não necessariamente estes serão realizados nas relações amorosas, tentaremos encontrar um objeto que substitua e que, além disso, alcance o valor deste amor original, e é aqui que nos fazemos faltantes. Se este primeiro amor nos fará buscar outras coisas e outros amores, então é correto dizer que por ele não ter sido realizado um dia é que nos tornamos, além de faltantes, seres desejantes.

Amar é, no entanto, uma falta constante que busca a completude de um amor perdido, desejando sempre reencontrá-lo. Porém, este permanece como falta, uma falta estruturante.

Neste sentido, vale dizer que o encontro dessas faltas se dará a partir de nossas escolhas, daí o sentido da afirmação de que toda escolha é sintomática, pois estaríamos todos em busca de uma falta que venha a dar encaixe nas nossas faltas, e que juntas elas se apoiem para que haja uma quase completude de amar, fazendo do amor o único significante capaz de acudir a maior desilusão humana.

“Que haja amor à fraqueza, está aí sem dúvida a essência do amor. Amar é dar o que não se tem, ou seja, aquilo que poderia reparar essa fraqueza original.” (LACAN, 1992, p.49).

O que Lacan vem dizer é que é na falta que o amor se une ao desejo e o amante elege um outro: o amado, e este poderá doar sua própria falta, fazendo dele o objeto que lhe falta.

Se o amor é capaz de juntar duas faltas, ele também é capaz de juntar duas vontades, e embora existam tantas definições para o amor, não haverá uma melhor que a parceria. Somente os parceiros doam seus pés para o outro andar, mesmo faltando-lhe os seus, só para que juntos possam caminhar. Ainda que haja tantos desencontros pela vida, haverá um dia em que o amor vai movimentar nossos desejos ao encontro daquilo que venha minimamente completar nossas faltas.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

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