No corpo, me descrevo…

Por Flávia Tereza

Tão comum nos dias de hoje, a tatuagem tem caído no gosto de um público bem abrangente, pode-se dizer que hoje não existe idade, sexo, posição social e nada que venha dizer o que é ou o que não é adequado. Este hábito cultural e milenar, é agora uma moda do mundo moderno. As tatuagens, que costumavam ser de uso fortuito na população em geral, e de uso predominante nos grupos marginais e de instituições fechadas, ganharam um novo e vasto público nesses últimos tempos.

Claro que cada um vai dizer o porquê de cada tatuagem registrada em seu corpo. Motivos diversos são capazes de levar alguém a tomar tal decisão. Um objeto que estima ou que perdeu, o nome de alguém especial, letras de música, figuras abstratas, e muito mais. As tatuagens podem trazer uma significação, porém, seu significado e sua relação com o sujeito são múltiplos. Pode até ser uma significação consciente, mas que pede um apoio real, algo que precisa ser visível e óbvio, ou até representar um conteúdo proveniente de um trauma. Um luto pode levar alguém a tatuar o nome do ente querido, assim como a relação com sua filiação pode levar a alguém a tatuar um símbolo capaz de evocar enigmaticamente algum tipo de familiaridade com seu grupo familiar, por exemplo.

Questionadora incômoda de verdades formadas, a psicanálise acredita que no trabalho um a um, a tatuagem pode nos aproximar da compreensão das marcas corporais elegidas, talvez como uma forma de inscrever no limiar da pele algo que resiste a entrar no interior de cada um. Se algo não consegue entrar, é melhor que fique na borda do que em nenhum lugar? Apesar de modificar a superfície, as inscrições corporais pouco se aprofundam naqueles conteúdos representados pelas marcas como as lembranças, sentimentos, inseguranças, etc. Ou seja, as marcas que são visíveis a quase todos, continuam resistentes à significação.

Antigamente era comum a oposição dos pais diante da decisão dos filhos de se tatuar, hoje são os pais que escrevem o nome dos filhos no corpo, levando-nos a questionar sobre a necessidade desses pais de carregar o nome dos filhos na pele. Seria a tentativa de consolidar um vínculo ou evitar perder-se dele?

A prática de tatuar nos sugere que a decisão de inscrever algo no corpo de forma permanente, apesar de hoje existirem técnicas para retirá-las, pode ser uma produção sintomática para dar conta de questões que vão desde as filiações, na tentativa de construir uma assinatura, a formações de limites demarcando algo que o sujeito é, até a insuportável constatação da fragilidade dos fugazes vínculos amorosos, levando os amantes a tatuar o nome daqueles que esperam ser para sempre seus.

No lugar do papel ou do discurso da voz, é na pele que os sujeitos escrevem suas autobiografias, acrescentando as marcas adquiridas ao longo do percurso de suas vidas, e essas marcas descrevem o conjunto de referências de cada um. É no corpo que a linguagem tenta dar conta daquilo que não deve ser esquecido ou o que não pode ser falado. Aqui não cabem pensamentos condenatórios ou preconceituosos, é certo dizer que a psicanálise tem um tom de provocação, diferente do senso comum e da queixação improdutiva. Mas é uma provocação que leva o sujeito em análise a se reconhecer em seu discurso e a ter minimamente uma consciência de sua posição diante do outro e no mundo.

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