Não é sobre o amor, é sobre saber como se ama

Por Flávia Tereza

Dizem por aí que a psicanálise faz das pessoas incrédulas nas relações amorosas, mas isso depende do amor em questão. Se é sobre o amor romântico dos contos de fadas, talvez seja prudente criar uma certa distância daquele amor falado o tempo todo em análise. O amor é um tema caríssimo à psicanálise, pois ele delimita a ética do seu campo de atuação realizada por Lacan e iniciada com Freud. Já outros acreditam que fazer análise se trata obrigatoriamente de o analista fazer o bem para seus analisantes, o que não quer dizer que não aconteça, mas o que verdadeiramente importa para a experiência analítica é que o sujeito ame.

O amor é um grande aliado da psicanálise em seu manejo de tratamento, e é por supor um saber ao analista a respeito daquilo que nos faz sofrer que é possível fazer uma análise acontecer pela via da transferência. Assim, também nos dirigimos ao outro quando buscamos o amor, primeiro porque somos faltosos e segundo por existir esperanças de uma completude. Acreditamos ser o outro capaz de fazer desaparecer essa falta original.

Então, é sobre esse amor de manejo técnico ao qual Lacan em seu seminário 20 vai dizer: “Falar de amor, com efeito, não se faz outra coisa no discurso analítico”.  Embora esta frase seja facilmente lida com uma certa dose de romantismo, é necessário lembrá-los de que o amor é também uma das maiores desilusões humanas, porque falar de amor em análise é também falar de angústia. O amor em algum momento de nossas vidas, certamente poderá apresentar efeitos de armadilha, o amor é um paradoxo. Uma experiência amorosa pode acomodar de um lado um efeito amenizador para o sofrimento que nos causa incompletude, e por outro lado, inevitavelmente, basta amarmos para também nos reconhecermos neste lugar de falta estrutural.

“Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão “Quem sou eu? ” (Jacques-Alain Miller). Por isso o amor está para cada um de uma forma bem singular, diz respeito a nossas neuroses e a nossa fantasia fundamental, é uma forma possível de realizar algo entre o fora e o dentro por via da fantasia.

Lacan vai dizer que o amor é certamente recíproco, pois o amor que o outro nos endereça sempre fala sobre nós muito mais do que podemos supor: “Amo em ti algo (meu) mais do que tu (és) ”. Portanto, quando alguém se supõe e vai se fazer ver pelos outros de uma certa maneira, ele acredita poder convencê-los daquilo que ele acha que é, aquilo que ele acredita que o faz amável.  E por que insistir em se fazer amável? Ele vai insistir nisso porque o objetivo é evitar o afeto da angústia. Apesar da angústia ser um afeto perturbador, ela é principalmente um afeto verdadeiro, o único que não engana, é o afeto que pode nos dar notícias de algo a respeito de como amamos e de como desejamos.

Ao investir nesse lugar onde o sujeito se faz amado, ele também se coloca na condição de privação do desejo, ou seja, enquanto o sujeito se apresentar como objeto para causar o desejo do outro, ele estará sacrificando sua condição desejante. Não quer dizer que não devemos ser amados, mas que há uma considerável diferença com relação ao investimento do sujeito que está mais preocupado em ser amado do que amante.

O sujeito que tem a urgência de ser amado está no nível das paixões e se inscreve no plano das relações imaginárias, onde as imagens se confundem e o outro não é respeitado dentro de sua individualidade. Ele exige provas que evidenciem o amor do outro por ele, porém, nunca se dá por satisfeito e só se queixa. É quem acredita que de dois se faz um e se engessa no “não-querer-saber” (sobre o seu desejo).

Alguns relacionamentos amorosos como as relações entre casais, entre pais e filhos e até mesmo as relações de amizade, podem ser marcados por encontros destrutivos, imaturos, e até mesmos abusivos, o que isso quer dizer é: o lugar onde cada um se coloca para o amor nem sempre proporcionará ao sujeito uma experiência viável. Não raro, ele também vai se ver às voltas com certos relacionamentos equivocados por mais de uma vez, ou seja, repetindo-os de tal forma que o levará para o mesmo impasse.

Isso que se repete evidencia aquilo que tem sentido para cada um de nós. Cada encontro vai se dar a partir de uma escolha e, além disso, haverá também um esforço para conduzir seus relacionamentos na direção da repetição para dar consistência à sua fantasia. Aprendemos a amar e desejar através de um reflexo que vimos no outro como no espelho, assim, os encontros amorosos funcionam como promessas de completude, uma busca inalcançável por aquilo que nos falta.  Neste caso, o amor seria o desejo impossível de recuperar uma parte de nós que foi perdida e que estaria encarnada no outro, aquilo que diz respeito ao objeto perdido, o objeto a.

Estejam advertidos: são escolhas e não o destino. E se não é o destino, significa que podemos fazer algo a respeito dos rumos e escolhas que tomamos em nossas vidas. Dar ao amor a dignidade de discurso numa análise é encontrar os limites possíveis para lidar com o impossível do amor, é dar legitimidade ao impossível da completude sem fazer disso um sofrimento. É isso que uma análise pode proporcionar, saber fazer melhor com a falta.

Portanto, para a psicanálise não é somente sobre o amor, é sobre saber como se ama, é sobre experimentar seu inconsciente e construir um saber a respeito de sua cena fantasmática. E o que é possível alcançando este saber sobre si? É para nos tornarmos amantes na vida e para a vida. Seria um tipo de amor ideal ou menos mortificado. Um amor que se inscreve no regime das diferenças, é o amor que nos separa da nossa própria imagem e respeita a individualidade do outro. Esse tipo de amor inscreve-se no plano das relações simbólicas por estarem na dimensão das palavras. Aqui esse amor “quer-saber” sobre o desejo.

Quando um analisando entra em uma análise a partir do lugar de amado, o analista, utilizando-se da metáfora do amor, espera que este sujeito aceda ao lugar daquele que ama. Uma transformação subjetiva do amado em amante como sujeito da falta, como sujeito desejante. Sobre o amor há sempre que deixar abertas as discussões, e o que essas palavras aqui pretendem é generosamente compartilhar caminhos possíveis, pois é falando que demandamos ao Outro uma resposta à nossa própria falta, e deste movimento emerge o desejo. E a psicanálise, no cumprimento de sua sina na transmissão, tem muito a dizer, fazer e contribuir.

 

LACAN, J. (1972-1973) O Seminário, Livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

Miller, J. (2008) Trecho da entrevista realizada por Hanna Waar e publicada originariamente na revista “Psychologies Magazine”, de outubro 2008 (n° 278).

LACAN, J. (1964) O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

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