Ei, você. Na psicanálise, não há conselho, há avesso

Por Claudio Barra de Castro

Uma das mais importantes constatações de Freud foi de que a subjetividade humana é estruturalmente constituída por uma trama de palavras, feita fio a fio. Nenhuma subjetividade pode ser sustentada se não existir um emaranhado de palavras sobre as quais pode fluir. Como a circulação das palavras só pode ocorrer e se dar na fala, é sobre esse material que a psicanálise se faz. Obviamente, a atividade da fala deve ser entendida de forma ampla, não sendo apenas verbal, mas envolvendo qualquer forma de produção subjetiva em que algo existente nessa forma possa ser articulado, nessa mesma forma, para além de si mesmo.

Recentemente, um amigo que estava lamentando uma escolha profissional errada em seu passado, recebeu de uma amiga em comum a seguinte expressão, muito corriqueira: “Pare de se lamentar do que passou, deixe passar”. Quanta verdade há nessa frase. Como ela retrata um movimento que a psicanálise propõe. Nietzsche, um importante pensador alemão do século XIX, dizia que o remorso é um dos piores sentimentos que se pode sentir. Quando estamos no remorso, na lamentação, estamos apegados a palavras que nos determinam e que não podem se movimentar. A isso chamamos ideal. Esse amigo que lamenta, está preso a um ideal profissional e não está sabendo lidar com a perda, com a impossibilidade dessa realização em seu momento atual. O que ele deve fazer? Desistir desse ideal? Não necessariamente, mas tentar reposicioná-lo, movimentar-se para sair do pensamento fixo de que há uma ordem do mundo em que seu lugar está definido, sem possibilidade de perdas. Nesse movimento, um passo importante, passo para deixar passar, é se perguntar: o que fazer com isso? Aqui entra um elemento fundamental para a subjetividade articulada como movimento na fala, a pergunta. Já perceberam como uma criança pergunta? Como é difícil imaginar uma criança expandindo sua subjetividade sem perguntas. Não duvide, quando uma criança pergunta, ela valoriza muito mais o ato de perguntar do que a resposta que lhe é dada. É natural nas crianças a pergunta do por que sobre o por que. Elas demonstram como somos mais do que ideais fixos.

Porém, na psicanálise, a pergunta dá um giro, procura um avesso. Ao invés de ir apontar apenas para frente e para uma nova visão de mundo, a pergunta trás em si um algo a mais que se caracteriza justamente por fazer balançar o ponto em que estamos, por fazê-lo de alguma forma não-ser. Há então uma necessidade lógica de se aproximar do “isso” da primeira pergunta sobre “o que fazer com isso” para, aí sim, poder deixar passar as coisas, não sem esse avesso.

Esse “isso”, Freud o definiu como o inconsciente, seu famoso Id. Devemos, então, tentar falar sobre o que não sabemos, sobre o que em nós está além da consciência. Para realizar esse caminho só há uma regra, fale livremente, a qual pode ser complementada, fale livremente para outro. Aí está uma boa oportunidade para se produzir alguma descrição sobre o papel do analista. Uma possibilidade seria caracterizá-lo como aquele falante que em transferência, na posição de um amado, mantém a fala do analisante e, nessa fala, provoca o retorcer e o vacilar de qualquer afirmativa que fixa um sentido. Sua função, então, está ligada a um ato, um ato que produz o deixar passar. Em seu ato não ocorre um simples conselho, nem um movimento em que se valorize o que já se sabe conscientemente. Trata-se de algo mais forte. Com ele vai-se, pela fala, para além da consciência, além do eu sei sobre isso, além do lamento, do ódio, da revolta, do não saber cru, do inesperado e injusto, do não cumprido, do trauma com o qual não sabemos lidar.

Até onde vai uma análise? Até onde esses avessos puderem ir no caso a caso. O importante é que toda a experiência psicanalítica demonstra que nossas possibilidades de criação vão se ampliando à medida que caminhamos nesse avesso. Não é fácil, causa dor, angústia. Porém, se há uma coisa que a psicanálise deveria suportar é esse caminhar no avesso, é a possibilidade de nele sermos sujeitos criativos, desejantes, indo paradoxalmente ao além do si mesmo, do certo, do que deveria ser. Assim, lhe digo: aposte no caminhe do avesso. Se há algo na vida que não basta, esse algo é o narcisismo em si, o qual é a fonte de uma certeza de si para além das relações com outros e dos riscos que ela implica. Se ele bastasse, um texto como esse, feito de palavras e que aponta para as entrelinhas do conhecimento, não tocaria ninguém.

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