De quem é a responsabilidade?

Já repararam que muitas vezes a gente se pega fazendo ou vivendo algo que é exatamente o contrário daquilo que gostaríamos? E, na maioria das vezes em que percebemos isso, a tendência é sempre dar um nome para o culpado, alguém, o universo que conspira: “Ah, isso só pode ser inveja de ‘fulano’!” Quem nunca? Essa mania de achar que o problema é sempre dos outros ou culpa da má sorte, nos afasta da real possibilidade de entender o que nos acontece.

Então, vou lançar aqui algumas perguntas que, retóricas, não esperam respostas e muito menos justificativas. Elas servem como provocações e reflexões acerca de nossa posição com relação aos nossos desejos. Porque são as perguntas e as pontuações responsivas que nos colocam em movimento com relação à uma cadeia de significantes que nos constituem.

Alguns vão se identificar e talvez, quem sabe, outros vão se sentir implicados em suas falas, assim como me sinto implicada em análise. Inclusive, me faço muitas dessas perguntas e tento constantemente ouvi-las e transformá-las em questões que vão gerar novas perguntas. Então, o que diz?

Você diz que quer viajar pelo mundo afora, mas então, por que é que escolheu uma profissão que te compromete dia e noite, inclusive aos finais de semana? Diz para suas amigas que quer ser mãe, assim, cuida de seus parceiros amorosos, irmãos e amigos como se filhos fossem. Mas quando é mesmo que vai parir o seu?

Você grita por aí que quer ser servidor público, mas não se preocupa em dedicar um tempo de sua vida para estudar e, quando encontra esse tempo, sente sono, muito sono. Não seria o mesmo que querer ser o único ganhador da Mega-Sena acumulada sem ao menos jogar?

Tem mania de limpeza. Quer limpar tudo que encontra pela frente e ainda quer limpar a barra de todo mundo, portanto, não quer saber de se deitar no divã e falar das suas verdadeiras sujeiras. Não se preocupa em limpar sua barra, seu nome?

Quer encontrar um amor para a vida, ter um relacionamento sério e se casar e diz: “Mas não sei o que acontece que só me aparece esse tipo de pessoa, que não quer nada com nada, parece até que eu estou atraindo isso para minha vida!” Ou é você que se atraí por pessoas assim?

Quer ser vista como uma grande mulher e exige ser tratada com mais seriedade, mas, ao contrário disso, demonstra fragilidade excessiva quando adota posturas imaturas, faz birra e está sempre com um acessório infantil no cabelo. Afinal, você quer parecer menina ou mulher? E ainda se revolta quando “brincam” com seus sentimentos?

Tantas declarações de amor nas redes sociais com frases e textos de tirar o fôlego. Palavras lindas de amor. Mas você sabe mesmo o que significa amar alguém além do romantismo dos filmes com finais felizes? Ou pelo menos se esforça para fazer jus, mesmo quando ninguém está vendo, àquilo que diz e ainda leva ao conhecimento público?

Queremos abrir uma hamburgueria e já nos preocupamos logo com o nome e como vão ser as redes sociais. Criar um blog, abrir conta nas redes: Facebook, Instagram, Pinterest, Tumblr e Periscope. Ufa! Mas nem pensar em ficar horas e horas diante da chapa quente para aprender a fazer o tal hambúrguer. A propósito, o que se vende numa hamburgueria mesmo?

Num lindo discurso defendemos a justiça, a alimentação saudável e a sustentabilidade. No entanto, usamos as redes sociais para julgar sem conhecer e compartilhar sem ler. Publicamos fotos de pratos da macrobiótica, mas na verdade estamos mesmo é lotando as filas de drive-tru do MacDonalds. Nos orgulhamos de tudo que pode ser feito a partir do lixo reciclável, mas reclamamos na hora de separar o lixo seco do úmido.

Reclamamos que as pessoas não nos respeitam e que não são dignas de nossa honestidade. Mas será mesmo que temos sido honestos com o outro e com a gente mesmo, ou estamos sendo permissivos com um bocado de coisas pra depois reclamarmos que a culpa é do outro?

Tá aí uma coisa que fazemos sempre né? Reclamar. E é isso que a gente faz mesmo viu, reclamar da vida e reclamar dos outros. Porque quando chove muito e entopem-se os bueiros a culpa é do governo, mas esquecemos que jogamos lixo nas ruas. Porque os mesmos políticos que hoje nos perturbam o sono com seus atos corruptos causando tanta indignação, foram eleitos por votos comprados por tanques de gasolina. Me diz, de quem é a culpa?

Temos muitas ideais e até as organizamos muito bem, somos capazes de nos aperfeiçoar em planejamento Canvas, mas, com a mesma intensidade, não somos capazes de executá-las. Ou não queremos nos responsabilizar pelas nossas próprias ideias e escolhas?

Viver a vida sem ter minimamente uma consciência do nosso desejo é como comprar um produto que não se sabe usar e se recusar a ler o manual antes de usá-lo. Podemos até saber o que temos que fazer, mas, alienados em relação ao nosso próprio desejo, acabamos por tropeçar em nossos atos e escolhas. Base do processo analítico e norteador desses tropeços, o desejo inconsciente é expressado em atos falhos, sonhos, chistes, sintomas. etc… Para Lacan, o inconsciente tem estrutura de uma linguagem e por isso, é preciso interpretá-la. O esforço em interpretar aquilo que nos é desconhecido e estranho, a partir dos enigmas da fala endereçada ao analista, é que faz do processo analítico o “lugar” do inconsciente.

Ou seja, para o sujeito que não faz análise, um ato falho por exemplo, não apresenta nenhuma implicação em sua vida e não passa de uma bobagem, um descuido. Já para o sujeito que está em análise um ato falho abafa um saber que diz respeito a ele, o que ocasiona um efeito de decifração. O sujeito pondera que existe ali um saber que vem direto do inconsciente, o qual deve ser assumido por ele.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

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