Auto sabotagem, uma reação de angústia frente ao sucesso

Por Flávia Tereza

Um estudante se dedica o ano inteiro estudando todos os dias, inclusive nos finais de semana e feriados, para passar no concurso que tanto deseja. Porém, no dia da prova diz que “deu um branco” e, por mais que ele diga que o conteúdo estava claramente ao seu alcance, inexplicavelmente, tudo que ele estudou se tornou inacessível naquele momento. Diante disso, ele se coloca a estudar mais e mais, já que há três anos ele tenta obter êxito nesta decisão de se tornar servidor público. Como é possível, neste contexto, um vacilo cometido pelo estudante no momento final e decisivo?

Freud (1916), no texto Os arruinados pelo êxito, aponta algo sobre a relação entre o êxito e o fracasso: “Parece ainda mais surpreendente, e na realidade atordoante, quando, na qualidade de médico, se faz a descoberta de que as pessoas ocasionalmente adoecem precisamente no momento em que um desejo profundamente enraizado e de há muito alimentado atinge realização. Então, é como se elas não fossem capazes de tolerar sua felicidade, pois não pode haver dúvida de que existe uma ligação causal entre seu êxito e o fato de adoecerem.” (p. 331).

No mesmo texto ele cita a anamnese de uma mulher, em que viu a oportunidade de compreender e descrever sobre essas ocorrências trágicas: “Era bem nascida e bem educada; no entanto, ainda muito jovem, não pôde conter seu gosto de viver; fugiu de casa e perambulou pelo mundo em busca de aventuras, até travar conhecimento com um pintor, que não só pôde apreciar seus encantos femininos mas também captar, apesar de sua degradação, as qualidades mais requintadas que ela possuía. Levou-a para viver com ele e ela provou ser uma companheira fiel, parecendo apenas carecer de reabilitação social para alcançar felicidade completa. Após muitos anos de vida em comum, o pintor conseguiu fazer com que a família dele se reconciliasse com ela; estava então preparado para torná-la sua esposa legítima. Foi nesse momento que ela começou a desmoronar. Descuidou da casa da qual agora estava prestes a tornar-se dona por direito; imaginou-se perseguida pelos parentes dele, que desejavam fazê-la parte da família; proibiu ao amante, com seu ciúme insensato, todo contato social; prejudicou-o em seu trabalho artístico, e logo sucumbiu a uma doença mental incurável.”

Mesmo que esses dois casos citados apresentem diferenças em seus contextos, podemos pensar que, de alguma forma, ao se aproximarem da realização, ambos seguiram em direção contrária ao êxito. É difícil constatar essa dinâmica, pois, ao idealizar o sucesso, inicialmente, podemos entendê-lo como algo bom e que seja o oposto da angústia, mas, ao contrário disso, a clínica psicanalítica traz casos como estes e ainda outros em que muitas vezes a queixa não aponta para um sintoma específico, mas para um sentimento de fracasso que repetidamente tende a aparecer.

Essas pessoas apresentam graves problemas em usufruir plenamente a satisfação de seus desejos, encontrando diariamente meios que operem contra suas realizações. Realizar o desejo traz angústia e ansiedade, levando-nos a pensar que esta realização pode estar na via contrária de algumas ideias significantes. “As coisas nunca dão certo pra mim”, “Não tenho tempo”, “Isso não é pra mim”, etc. Frases como estas fazem parte de um rico discurso do sujeito que busca sustentar a ideia de que não pode ter o direito de se sentir feliz atendendo aos seus desejos. Existem ainda outros dispositivos sabotadores que o impede de obter sucesso em suas ações, tais como: falta de tempo, desorganização, descontrole financeiro, falta de foco e atenção, intolerância e impaciência, medo de se arriscar e sair da zona de conforto, que são, na verdade, as famosas des-culpas. Portanto, não fazer uma prova porque não quer se sair mal na colocação, mesmo tendo estudado, seria medo do fracasso ou medo do sucesso?

No texto Os arruinados pelo êxito, Freud destaca o sentimento de culpa, que torna intolerável qualquer possibilidade de sucesso. Tal como o castigo, o sentimento de culpa priva o sujeito de desfrutar de suas realizações, de modo que ele deve, sob o instrumento da angústia, fracassar. Ao avesso do que se espera, há uma reação de angústia frente ao sucesso e esta incide na tentativa de cumprir com um ideal em que nada pode faltar. Este ideal está na ordem do impossível, pois nos constituímos na falta e pela falta, ou seja, a falta é fundamental. É a partir da falta que nos tornamos desejantes.

Apesar de não me aprofundar aqui a respeito dessa constituição subjetiva, é preciso entender sobre um conceito importante de Lacan, o objeto a. No contexto desta discussão, o que precisa ser dito é que, fundamentalmente, o objeto a é resultado de uma equação, ou melhor, é o resto de uma divisão do sujeito. Portanto, se o sujeito foi dividido, isto implica que não é inteiro e, se houve uma divisão em que se perdeu algo, o sujeito passa a procurá-lo e buscá-lo incansavelmente, por isso é chamado de objeto causa de desejo. Na tentativa de que nada falte, o sujeito é levado a incorporar o objeto. Neste caso, ele deixa de operar como objeto faltante ou objeto causa de desejo para ser objeto de desejo para o Outro. Esta é uma tentativa mal sucedida e angustiante de completude, pois, para não se dar conta da falta, ele sai da posição de sujeito.

Lacan vai dizer que o objeto da angústia aparece como algo que supõe tamponar a falta, e é a ausência do objeto a, como causa de desejo, que faz com que isso aconteça. Para Lacan (2005, p. 116), o objeto a “[…] é uma precessão essencial”, pois ele está atrás do desejo, ele é causador de desejo, o que é totalmente diferente de ser o objeto de desejo.

Para alguns sujeitos, o sucesso e a felicidade deveriam ser sem falta, como isso não é possível, de alguma forma fracassam para aliviar a angústia. E, no fracasso, eles encontram uma forma de gozar da condição de derrotado e fracassado. É como se ouvissem uma voz (do Outro, do pai) que impera e impõe o fracasso como castigo, evitando o sucesso que não lhes é devido. Sendo assim, inevitavelmente surgirá a questão da repetição do fracasso como um fantasma. Esse fracasso pode ser um traço de caráter e o sujeito poderá seguir em sua vida sem buscar uma análise, por não se tratar de um sintoma, mas de um traço da subjetividade difícil de negociar.

Marta Gerez (2009) concorda com Freud na possibilidade de saída pela via do amor: “No tipo de caráter dos que fracassam (por culpa) triunfam (em sua ambição) não é possível fazer circular a culpabilidade pelo caminho da dívida simbólica, uma vez que se trata de sujeitos que não suportam receber os dons do pai. Impossível sustentar a transferência pelo viés do dom do amor. Incidência da “instância crítica” pela via do pior da culpa do pai. Questão de Freud insiste na análise de “Rosmersholm”, a qual, anos mais tarde, na carta a Romain Rolland (1937, p. 77), confrontará com esse avesso da covardia culposa que configura o ato de “ir mais além do pai” graças aos dons do pai.”.

Neste sentido, para ultrapassar o pai, antes é preciso reconhecer sua própria falta (castração), e a solução seria a dissolução do ódio pela via do amor. Na carta a Romain ou Um distúrbio de memória na Acrópole, Freud (1936, p. 239) se vê às voltas com um desejo antigo de visitar Atenas, surgindo-lhe a seguinte afirmação: “bom demais para ser verdade”.

Ainda sobre esta experiência, o autor acrescenta que: “Pode ser que um sentimento de culpa estivesse vinculado a satisfação de havermos realizado tanto: havia nessa conexão algo de errado, que desde os primeiros tempos tinha sido proibido. Era alguma coisa relacionada com as críticas da criança ao pai, como a desvalorização que tomou o lugar da supervalorização do início da infância. Parece como se a essência do êxito consistisse em ter realizado mais do que o pai realizou, e como se ainda fosse proibido ultrapassar o pai.” (FREUD, 1936, p. 245).

Assim, o sujeito, ao se deparar com o êxito (ultrapassar o pai), se angustia por não poder ir além do pai, ele precisa fracassar. Na visita à Acrópole de Atenas, Freud foi além do pai e encontrou como saída o reconhecimento de sua filiação, “respeito filial” (1936, p. 245).

Algo interessante marca o percurso de Lacan neste sentido. Para quem já leu ou ouviu o autor dizer que, apesar de alguns analistas se intitularem Lacanianos, ele era Freudiano, fica bem claro o que ele quis dizer sobre isso. Lacan reconheceu Freud como o pai da psicanálise e, servindo-se dele, pôde ir além de Freud.

Diante disso, a saída da angústia frente ao sucesso aponta para uma direção de análise que instaure o desejo do sujeito. Quando este for levado à reconhecer sua falta abdicando de uma ideia de completude, alcançará aquilo que está na ordem mais próxima do possível, não total, mas castrado, ou seja, aquela posição em que o objeto a opere como causa de desejo

FREUD, S. (1916) Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GEREZ, Ambertín, Marta (2009) As vozes do supereu. Edição Cia. de Freud. Rio de Janeiro, 2009.

FREUD, S. (1936) Um distúrbio de memória na Acrópole. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

1 thought on “Auto sabotagem, uma reação de angústia frente ao sucesso”

  1. Estava entendendo até que não pude mais… não sei se é o sono ou se me falta conhecimento teórico filosófico mais profundo! Apesar disso compartilhei na minha timeline com um pedaço do texto que entendi e gostei…

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