Anestesia de dor e de desejo?

Hoje em dia tem remédio pra tudo não é? Quando logo nos deparamos com alguma limitação, são a eles que recorremos prontamente. Talvez pela enorme tendência da contemporaneidade de buscar o imediatismo dos medicamentos e suas soluções cada dia mais atraentes, desde os antidepressivos para dar conta de uma tristeza ou evitar uma “deprê”, até o Viagra, em resposta à inibição da função sexual. Mas, neste contexto, seria possível que somente a presença de algum tipo de inibição seja capaz de levar um sujeito à análise? Talvez sim, mas, antes disso, é preciso que se torne sintomático ao sujeito, ou seja, que apresente um tipo de sofrimento.

Quanto a este sofrimento, poderíamos pensar na presença da angústia como advertência de que algo não está bem, de que há algo que aborrece. O conceito de angústia poderia nos levar a refletir sobre as relações entre inibição e sintoma, já que se trata de um ponto de articulação entre estes dois outros conceitos. Outra reflexão possível refere-se ao questionamento levantado em uma análise: qual o lugar do analisando enquanto sujeito? A angústia que se apresenta, muitas vezes é tamponada por medicamentos e, ao buscar essa via, a angústia provavelmente, não será falada.

Lacan refere-se à inibição como uma paralisação do movimento e ainda fala de um impedimento. Ele diz que ao lidar com suas inibições no dia-a-dia, os sujeitos ficam mesmo é impedidos, e que impedimento é sintoma. Em seu seminário sobre angústia, Lacan diz: “Ser inibido é um sintoma posto no museu”.  (1962-1963)

Freud (1987), trinta anos antes de Lacan, afirmou que mesmo diferente do sintoma, uma inibição pode vir a se tornar sintomática. Ele acredita, portanto, na transformação da inibição em sintoma, enquanto Lacan afirma que inibição é sintoma. Um sintoma “posto no museu”. O que poderíamos pensar com relação a essa afirmação de Lacan?

Compreender a inibição como um sintoma “posto no museu” já implica em uma ação por parte do sujeito, há o movimento de colocar no museu algo que se quer preservar ao mesmo tempo em que o retira de circulação. A este movimento ele atribui o fato da inibição ter se movimentado em direção ao sintoma e, ao se tornar sintomática, a inibição poderá articular-se em discurso na análise.

A articulação entre a inibição e o sintoma se esquematiza através da angustia, e esta, muitas vezes, é remediada através de medicamentos e fórmulas restritas, que neste contexto, ao contrário de soluções, não passam de engodos. E se tantas pessoas ainda se deixam atrair por essas vias de soluções que visam tamponar a angústia, é porque aquilo que se apresenta como inibição ou sintoma, não os implica enquanto sujeitos desejantes.

A clínica psicanalítica receberá os sujeitos que se veem às voltas com seu sofrimento, que queiram nos dizer sobre suas dificuldades ligadas ao trabalho, família ou escola. Essa dificuldade impeditiva é que vai movimentar os questionamentos do sujeito que não se reconhece diante desse obstáculo, deste embaraço.

É ao se colocar para a escuta do discurso daquele que fala de suas falhas que se apresentam em tropeços, a fala do sujeito dividido por seu desejo, que a clínica psicanalítica trabalha. Algo da verdade do sujeito falante vai se apresentar, e isso só acontece por julgar a presença da angústia no alicerce da inibição, surgindo em sua expressão de sintoma.

Diante das mais variadas formas de lidar com o sofrimento dos novos tempos, espera-se que haja uma implicação diante das especificidades do sofrimento de cada um. Ao analista caberá conduzir em análise a possibilidade de retirar do museu a inibição, e este movimento promoverá o desconforto sem anestesias, mas somente assim é que o sujeito vai se perguntar sobre seu desejo.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

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