Afinal, por que fazer análise?

O paciente de Freud, apesar da conotação passiva que o termo carrega, não é qualquer paciente. Ele é o mesmo analisando de Lacan, ao qual confere ao sujeito em processo analítico sua própria responsabilização e ação de “fazer análise”, assim chamando-o de analisando, este atribuiria ao analista, como função, o lugar daquele que supostamente apreende o saber sobre os sintomas e enigmas do analisando. Neste caso, nem Freud e nem o analista explica, é o analisando que, deixando-se levar pelo seu discurso, se tornará sujeito da própria história, e ao analista caberá o cargo de editor desta história, através da uso de ferramentas como a interpretação.

Talvez seja a questão mais inquietante da psicanálise, assumir que somos responsáveis sobre nossos sintomas e mazelas. Não no sentido de sermos indiciados por eles, mas no sentido de assumirmos a parte que nos cabe nos problemas e fracassos da nossa existência. E na medida em que for possível, superá-los.

É na análise que implicamo-nos em dizer a verdade sobre nós mesmos e, às duras penas, podemos ver muitas ilusões, que levamos tanto tempo construindo, serem pouco a pouco desvanecidas.

A análise é o lugar onde se pode dizer sobre o tudo e o nada, onde as perguntas brotam através dos tantos porquês que guardamos durante uma vida, talvez por medo de parecer idiota. Porém, as respostas não levamos conosco, o que levamos no bolso são mais perguntas e enigmas, o encanto disso é o movimento que esta experiência proporciona.

Para análise a gente leva uma dor que é só nossa, e quando falamos dela não ouvimos: “Eu também”, mas sim, “me fale mais da SUA dor”. A análise é onde essa dor sentida e bem dita por inúmeras vezes tornar-se-á uma poesia, tanto faz se é bela ou não, posto que é sua, ou seja, é escrita pelo próprio sujeito. Pois é de tanto se ver às voltas com a própria dor que esta acaba por virar história e, por amor, nos reconhecemos nela.

É na análise que as falhas na fala falam mais do que ela mesma, já que, por descuido de um breve instante, soltamos as amarras do inconsciente, e é quando, mesmo falando na primeira pessoa, atropelam-se os pontos, as vírgulas e os parágrafos.

Na análise damos lugar para aquele negócio, aquela coisa, aquele trem que é impossível nomear, é um coisamento que atravessa e angustia. Por esse viver marcado pela solidão que não tem nome, o analista devolve uma questão para que o analisando possa se haver com ela. Questão que acaba por se transformar em “O que você quer?”

Ao contrário do que muitos pensam, a psicanálise não reforça o egoísmo quando cria lugar para o sujeito falar de suas próprias questões. O olhar que se estende ao analisando não vai reforçá-lo na ilusão de ser único e o sabe tudo. Ao contrário disso, ela vai fazer com que nos demos conta de que não somos únicos e que não sabemos de tudo, descoberta que faz doer e provoca desconforto e angústia. Neste sentido, a psicanálise procura clarear-nos de uma cegueira que traz sofrimento. Portanto, a psicanálise pode ser tudo, menos tolerante com nossos desejos de iludirmos a nós mesmos.

A psicanálise é pra quem prefere ser imbecil, do que saber demais, do que ter receitas prontas, do que ter “alívio já”. Psicanalistas só conhecem um tipo de alívio já: o do Antiácido. (MACHADO, 2014).

Começa-se uma análise pelos mais diversos motivos. Descobrir-se, torna-se, nascer… Para fazer análise é preciso ter coragem pra sair da mansidão. O que assusta na psicanálise é o que a sociedade contemporânea mais teme: o conflito, e como fazer para lidar com ele e suas raízes, que estão em cada um de nós. Através de seu corte crítico, a análise apoia a conquista de uma autonomia possível. E, apesar de incomodar e perturbar, nos abre os olhos para nada mais do que nossas insignificâncias, o que já é muito.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

3 thoughts on “Afinal, por que fazer análise?”

  1. Olha realmente depois de ter lido esses texto , frases, documento, comentário ou sei lá … mas enfim seja oq for eu realmente me convenci de que Analice nao é pra louco .. eu não sei oq eu tenho mas sei q preciso urgentemente de um analista … amei oq acabei de ler… estou hoje realmente muito pensativa, triste , brava, confusa, sofrida, desanimada , infeliz aí sei lá como tô … só sei q amei esse texto

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