A Metáfora e a Metamorfose Ambulante

Por Claudio Barra de Castro

“Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante.”

Em 1973, Raul Seixas lançava a música Metamorfose Ambulante, a qual continha os famosos versos apresentados acima. Essas duas palavras que dão título à música, ainda mais por estarem em articulação, me interessam sobremaneira. Metamorfose, no dicionário, tem como uma de suas acepções o termo transformação, o qual traz a ideia de mudar a forma e que, portanto, implica movimento e criação. Ambulante, por sua vez, tem como significações aquilo que se locomove, que anda ou migra, que não tem lugar fixo, que se transporta sempre de um lugar para outro. A metamorfose ambulante seria então a sustentação de um movimento criativo ocorrendo em vários lugares.

Essa compreensão conjunta das palavras metamorfose e ambulante é muito interessante, porque o psiquismo humano, para a psicanálise, se constitui exatamente sobre a alternância dialética entre o movimento e a criação. Em Freud, o aparelho mental se estrutura em pólos conflituais, em antagonismos, como Eros e Tânatos, amor e ódio, que no seu intercâmbio dinâmico estabelecem as condições para a criação. É antiga na história da humanidade a percepção de que os grandes criadores enfrentam conflitos subjetivos imensos, sendo clássica a afirmação de que é preciso se afundar na melancolia para que uma criação artística relevante aconteça. De forma talvez menos grandiosa, mas não menos dramática, pode-se dizer que os sintomas são uma solução criativa de compromisso entre forças opostas, entre desejos ou possibilidades diversas. Por conseguinte, é possível entrever que quando uma pessoa tem diminuída sua capacidade de movimentar e articular suas conflitualidades em negociações constantes, quando o sintoma deixa de ser eficaz, surgem as demandas de análise. Nesse contexto, também seria razoável considerar que a vida subjetiva somente acontece quando o sujeito se sustenta como potencialidade de movimento e de criação.

Um dos potentes brilhantismos de Lacan foi relacionar formalmente esse nosso funcionamento psíquico com a linguagem. É conhecida sua definição de que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Entre os vários encaminhamentos analíticos que essa frase pode produzir, gostaria de enfatizar o que ela pode expor sobre nossa capacidade de criação. Para tanto, destaco um termo linguístico em particular, a metáfora. Novamente recorrendo ao dicionário, tem-se por metáfora “a designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma relação de semelhança”. Esse é o conceito tradicional de metáfora: falamos de algo que passa a ter sentido porque tem analogia com outro algo em relação ao qual indiretamente nos referimos. Lacan, surpreendentemente, afirma que na metáfora não se trata de analogia, mas de outra coisa. Para ele, é errado dizer que a metáfora tem por função apenas dizer uma coisa que significa outra. Considera que não se deve pensar que a metáfora se efetiva somente pela transmissão de uma mensagem codificada, na qual há um conteúdo cognitivo escondido que o intérprete deve captar. A tentativa de interpretação guarda resquícios de nossa crença no sentido, nossa crença de que existe algo de que ainda não sabemos, mas vamos saber. Nesse aspecto, nossa atenção fica voltada para a transmissão de uma mensagem, para o saber além da ignorância. O perigo do saber é que ele, ao abarcar uma verdade, paralisa justamente o movimento e a criação. Dessa forma, à parte do saber, Lacan faz nossos olhos se voltarem para outro aspecto da metáfora, para seu poder criativo. Ao mesmo tempo, realça o papel do inconsciente nessa criação.

Para demonstrar o ponto valorizado por Lacan na metáfora, considere uma piada. Quando você ri de uma piada, sua apreciação se dá pelo prazer de ter entendido que havia uma racionalidade no enunciado e que você pôde captá-lo e, portanto, venceu o desafio, ou ela se dá no próprio ato do riso, no espaço de navegação entre os sentidos, no próprio jogo de inspiração, de insight, de criação que a linguagem promove? Ressalte-se que, em 1905, Freud publicou um texto chamado o “Chiste e suas relações com o inconsciente”, no qual escancarou esse poder linguístico do chiste.

Com a ênfase de Lacan, podemos então ser mais arguciosos com a metáfora. Com o apontamento dele, podemos passar a testemunhar na metáfora um poder de corte, de transformação, de incitação à criatividade. Passamos a apreciá-la como uma dimensão importante de nossa linguagem, dada sua capacidade de nos locomover de lugar, de nos migrar para lugares inesperados, de nos deslocar, de promover insights. Experimentamos que a linguagem não está em função do conhecer, mas do aventurar.

Sinalizo que o uso que fiz do plural nos verbos do parágrafo anterior foi proposital. Fiz isso porque em uma metáfora nunca se está sozinho e, na clínica, o bom uso da metáfora requer a inclusão do analista. Esse fato decorre de outra característica da linguagem: a mensagem que recebemos de nossa fala depende de quem a escuta. Quantas vezes rimos de algo que falamos porque nosso interlocutor riu e nos apontou para a possibilidade do riso. Esse tipo de torção da fala deve fazer um analista. Deve eticamente apontar para seu analisante as possibilidades de criação, de fluência, de ir além da fixidez que uma fala pode trazer. Para tanto, evidentemente, o analista necessita ter experiência com a linguagem, precisa ter uma formação que suporte seus atos de retirada do analisante do lugar no qual este está preso, que provoque a saída deste de sua eterna queixa, de sua tristeza, de sua paralisia que torna impossível seu movimento criativo e restringe sua capacidade subjetiva
de ser uma metamorfose ambulante. Ressalte-se que para a psicanálise o termo lugar, apontado pelo uso da palavra ambulante, não é um lugar físico, mas se relaciona com o uso subjetivo de nosso corpo e com a alteridade que nos mantém como sujeitos, com os parceiros a quem destinamos e com quem construímos nossos discursos, nossas falas sobre nós mesmos e sobre o mundo.

Às vezes, a abordagem teórica de Lacan é considerada áspera, complicada e herética. Porém, com que amplitude trabalha. Ainda, seus textos deixam claro como uma produção teórica, produto de uma práxis, pode ser fundamental ao apontar para, ao mostrar, as potencialidades humanas a serem trabalhadas na clínica psicanalítica e a ética que se deve exigir de um analista.

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