A amizade é sublime

Já ouvi dizer que estar num relacionamento amoroso e fazer planos para o futuro com a pessoa amada é mais importante do que compartilhar momentos sem propósitos com amigos. E sobre isso, eu vim aqui para discordar. E antes mesmo que você me aponte o dedo para dizer que eu estou desrespeitando o amor, insisto que leia e compreenda a amizade como uma relação afetiva que pode ser sublime.

Aprendemos a amar dentro das nossas relações familiares, mas em um dado momento, mais precisamente na passagem da infância para a adolescência, seremos levados a articular o amor em um contexto extrafamiliar. Essa fase será marcada por várias mudanças difíceis de serem atravessadas, como, por exemplo: a elaboração de lutos em decorrência de perdas por abandonar a infância, a construção de novas identificações, o estabelecimento de novas representações. Através dessa experiência extrafamiliar, enquanto jovens, seremos impelidos a acessar experiências mais complexas com relação ao outro e, a partir dessa conquista, é que seremos capazes de construir, nessa caminhada, sentidos para nossas vidas que vão facilitar uma relação com o desconhecido.

Neste contexto, esse processo vai permitir apoiar nosso desejo de viver, o prazer pela vida, compartilhar com outros nossas ilusões e ideais e, sobretudo, trazer para as relações um ingrediente chamado brincadeira, fornecendo, a partir disso, a organização para iniciarmos nossas relações emocionais e desenvolver contatos sociais, entre os quais se inclui a amizade.

Ao contrário do amor, a amizade não exige exclusividade, é possível ter vários amigos, e aqui não me refiro aos mais de mil amigos nas redes sociais, pois muitos desses são apenas conhecidos, e não amigos. Um amigo é amigo quando nos deixa à vontade para falar com ele sobre nós mesmos, falar sobre nossas intimidades ou até mesmo, falar besteiras aleatórias por horas e horas, e ainda dar intermináveis risadas, saindo de um encontro de alma lavada.

Quando um amigo vai morar longe e passamos meses sem vê-lo, o reencontro é capaz de atualizar aquela intimidade, diferente do amor, pois antes desse reencontro acontecer, este já terá morrido de saudades. Sim, é possível que o amor morra de saudades se nos distanciarmos por um longo período da pessoa amada, pois a demanda do amor pressupõe o preenchimento de uma falta. Lacan vai dizer é que é na falta que o amor se une ao desejo e o amante elege um outro: o amado, e este poderá doar sua própria falta, fazendo dele o objeto que lhe falta. No entanto, isso não acontece na amizade, a distância entre bons amigos não será capaz de sepultar tal relação.

A amizade não carrega missões e, consequentemente, não carrega o peso de uma expectativa para o futuro, ela é presente. Presente em duplo sentido, pois se ela não pressupõe expectativas, assim ela não será provedora de ansiedade. Sem objetivos e obrigações, a amizade tende a nos aproximar de sentimentos que geram prazer, além disso, podem contribuir para um equilíbrio psíquico e promover a saúde mental.

Para viver atualmente dentro das novas formas da sociedade moderna, cada vez mais individualista, eu diria que as amizades são fundamentais para um bem viver. Sem dúvida alguma, elas encurtam as distâncias entre as ilhas do isolamento nas quais temos vivido hoje em dia. Sobre o amor e a amizade, que um não substitua o outro, mas se o primeiro é viver um relacionamento amoroso cheio de alegria e parceria, que o outro seja a liberdade dos despropósitos.

Flávia Tereza

Psicóloga e Psicanalista

CRP 01/18002

1 thought on “A amizade é sublime”

  1. Flávia, mais que perfeito esse texto! Amo sua escrita e estou sempre por aqui te acompanhando. Existem amigos de verdade! Amigos que sempre que precisamos correm para nos ajudar, nos dar conselhos e sempre estão próximos (mesmo distantes fisicamente). Eles são o que fazem a vida valer a pena!

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